Sunday, June 17
Thursday, June 14
oscilando
Que coisa mais clichê. Não sei clichê pela frase melodramática em si, ou pela fala cheia de necessidade verbal de verdade linear, nada moderna. Modernidade do amor sintético. De minhas frases truncadas de interpretações abertas... Afinal, entenda o que quiser, eu não vou ficar, caio fora.
Mas não caia nada. Não caia porque você me segurava e as perguntas não esperavam minhas considerações sobre as tendências.
-Tá entortando meus óculos.
Foi minha resposta. Deixando claro que não respondia nada, a voz não saía enquanto eu me espremia por dentro esperando verter alguma lágrima. Chovia e minhas lentes ficavam granuladas. Via coisas fragmentadas e enxergava pior com os óculos do que sem. Pensando bem, sempre enxerguei muito bem sem eles. De qualquer forma, torcia para que uma gota caísse por dentro dele e eu poder chorar uma lágrima emprestada.
Não moveu um músculo. Nessa de impedir meu cair, seu segurar me impedia de responder por mímica. Minha cabeça negando era bloqueada por seus braços. Poderia ter desistido agora, se tivesse a intenção de fazê-lo em qualquer momento antes das mãos. Mas nem isso.
Acuso-te de querer parar o não à força. Querer ouvir minha voz entalada dizendo a coisa toda. Era ato pensado, violência premeditada, queria me obrigar a assistir na sua cara a reação aos meus disparates. Falados. Queria que eu ouvisse minha voz entalada dizendo a coisa toda.
Queria mesmo, me culpar por todas essas coisas que tenho por dentro, ou tinha, queria fazê-las entrar em minha cabeça e me convencer a soltá-las em forma de culpa aguada. Mas eu me espremia toda e nenhuma lágrima te contentava.
Eu queria apenas não.
Você queria todo o resto.
Eu deitava ao seu lado perguntando o livro que estava lendo.
Você me perguntava se podia abrir o zíper da minha calça.
Você queria toda a cena, e eu tentava tornar tudo menos ridículo, uma vez que você me abraçava sem meu querer e, todo desajeitado, entortava meus óculos.
É patético, eu sei disso, mas era mais ainda uma questão de espaço. Eu não cabia em você, e você ocupava uma salinha no fim do corredor de mim. E isso me deixa espaço o suficiente para pensar nos tédios todos e, enquanto você me beijou consentido, assim, pela última vez que prometo ir embora, eu pensei: que dia estúpido para se usar óculos.
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Alice
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11:09 PM
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Tuesday, June 12
apesar de termos feito tudo o que fizemos
ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais.
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Alice
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1:41 PM
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olha sua caneta aqui
Lá em cima, ele me estendeu a mão e me puxou para um abraço espontâneo. Eu fui abraçada no desconforto de achar melhor voltar e contar os degraus. Só para ter certeza de ter entrado na casa certa.
Esses estranhos aconteciam numa noite meio desprevenida. Dessas onde o frio chega amarrado a um ventinho inoportuno que, apesar de arrepiar, não justifica a viagem até o armário só para buscar um casaco.
Ela parou a porta da cozinha e esperou. Foi, voltou, esperou. Ofereci, afinal, um pouco do meu café, só para tentar uma conversa situacional. Com um pouco de sorte poderia até entender o porquê e, se fosse justo, me prestaria a ajudá-la a esperar. Ir, voltar, esperar.
Falei, como segunda tentativa, que o café estava bem quente. Fez uma cara de nojo, por pura preguiça, isso eu entendi. Destronar o calor para não admitir o frio e ir logo buscar o tal casaco. Enojou-se e encolheu-se, com os braços nus.
Decidi que a espera era por mim e derramei o resto do café na pia para poder sair logo dali. Rumei à porta e tentei sair, mas não deixaram. Pediram-me, meio aos gritos, que ficasse. Fiquei no silêncio, só para não aumentar o volume de vozes várias que, como eu, não tinham nada especifico a dizer.
As pessoas sorriam e gritavam em meio às gargalhadas, apesar de a sobriedade imperar. Enquanto tentava me decidir sobre o humor da sala alguém trouxe minha bolsa e, de repente, apenas as paredes do lugar me ofereciam abrigo.
Apoiei-me em uma delas. Depois me apoiei mais. Logo estava empurrando com toda a força a parede para trás. Dei um risinho tênue para tenta me ambientar, mas meu lábio deu uma leve tremida e não fui levada a sério.
Ele e Ela, incrédulos, viraram minha bolsa de zíper aberto no chão, espalhando minhas infinitas peculiaridades que a rotina organizou para mim. Depois da minha risada desafinada, acho que procuravam meu senso de humor e, mesmo que eu dissesse em tom de deboche que a piada não estava boa, era totalmente desacreditada. Então vasculhavam ali.
Em câmera lenta, o cenário de dentro da bolsa foi desmontado sob a mão-de-obra da gravidade. Os objetos caiam no chão e nem quicavam. Caiam como pedaços de coisa sólida destinada a estar lá, atraídos quase que como imãs, e se pregavam no chão como se fosse a última possibilidade de permanência no mundo.
Se postavam ali, observados e discriminados cada um a sua função e o porquê. Eu torcia para que não, mas, se me perguntassem, eu não saberia dizer, para a maioria deles, o porquê exato.
Era um teatro bem abstrato, daqueles que se fazem sozinhos, por juntar vários trechos de coisas que são, quase sempre, bem normais, formando um pequeno apanhado de indiferenças desconexas. Mas era tudo meu, e foi o que eu disse.
Eu disse, mas foi um dizer certo e me calei pela blasfêmia do tom que usei. Queria sair e largar tudo lá, mas me debatia nas paredes que nem se moviam. Não, as paredes não se fechavam contra mim.
Fechei os olhos e tentei imaginar uma cena assim, tão assustadora em vergonha como a que via de olhos abertos, só que de olhos fechados e de pura imaginação, pra envergonhar por dentro e esquecer lá fora.
Lembrei de um dia engraçado em que agarrei as pernas do homem errado no elevador. Ele tinha mais de um metro e oitenta, e eu menos de quatro anos. Fiquei presa àquela calça jeans por alguns segundos, peguei uma caneta do bolso dela e comecei a brincar. Brinquei até ouvir a risada familiar das pernas de quem achava estar agarrada.
Ouvi a risada do lado de lá, desmembrada de onde eu segurava. Olhei pra cima e vi um homem errado grudado às pernas em que eu grudava. Soltei correndo aquelas pernas e voltei-me para as minhas, para aquelas que eu achei estar agarrada desde o começo.
Peguei-as com calma dessa vez. Não apertei muito, talvez por precaução, mas principalmente porque eu estava ocupada apertando ao máximo os olhos pra mantê-los bem fechados e ter certeza de que ninguém me via por fora.
Abri os olhos, afinal, com medo de que tivesse perdido alguma coisa importante por aqui. De todas as coisas espalhadas e todo o barulho desorganizado que eu não conseguia por bem escutar, achei ali um pedaço de passado que me recuperou o senso de humor.
-Olha sua canela aqui.
-Não é minha.
-Eu sei.
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Alice
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12:16 AM
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Sunday, June 3
como
-Não fecha a porta, não, que eu não consigo abrir depois.
-Eu toco a campainha.
-Eu sei que você não volta.
-Mas se eu voltei mesmo depois que me mandou embora...
-Agora é diferente. Não sou eu que acho que quero. É você. Você que quer.
-Tchau. Eu toco a campainha.
-Se voltar, também, eu não abro.
-Abre.
-Não fecha a porta que no certo você nem precisa sair.
-Estou vazio.
-Quando voltar cheio não vai passar pelo vão da porta.
-Pára de besteira.
-Leva a chave então.
-Pronto. Volto mais tarde.
-Apaga a luz, vou dormir.
Deu duas voltas com a chave na fechadura. Depois deu mais duas, ao contrário:
-Acorda amanhã?
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Alice
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11:31 AM
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Monday, May 28
cabelos brancos
-ele não faz nada e eu ajudo ele.
ele não faz nada e eu o ajudo todo dia.
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Alice
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9:58 PM
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Saturday, May 26
cinco mundo
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Alice
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11:37 PM
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três mundo
Seu nome era Raquel.
Na verdade, não era. Mas queria que fosse então finjo. Acho que, pela necessidade infantil de sentir mundo, só posso chamar uma pessoa de algo que realmente acredite, e eu tenho certeza de que apenas Raquel poderia carregar tudo aquilo nos pulmões.
Se digo que seu nome era Raquel, é porque é isso que eu sabia, desde antes de me sentar no banco, não me importando com quantos outros de que a chamavam.
Minha parte era Raquel, no passado, agora não mais: Raquel, coisa que nunca foi na vida, e minha, um tempo mais tarde. Ou apenas num tempo passado que me evita exposições ao ridículo. Sei o quanto essas possessões são clichês, modernamente falando, mas eu me arrisco. Talvez só tenha sido minha como foi Raquel, sob minha deturpação das coisas.
Mas na época eu ainda achava minhas deturpações pura criatividade.
Enquanto buscava me empurrar para fora, ela me ensinou a ficar sozinha. Acreditamos juntas que tudo tem um começo palpável e o nosso era a inata necessidade de solidão. Eu conscientemente não acreditava nisso, mas achava que, talvez, possivelmente uma parte de mim, quem sabe, sim. Comprei a solidão, então, e fizemos como que em prateleiras em nossa casa. Solidão essa que ela às vezes chamava solidez, só pra sedimentar o peso essencial da coisa. E também para se mostrar genial.
Talvez o fosse, Raquel.
Eu preferia mesmo chamar a solidão de começo, e só. E depois disso tudo decai, tudo queima. Acreditava sozinha que a expectativa do primeiro era a felicidade e tudo, depois disso, era uma necessidade desumana de voltar àquele instante de deslumbro. Por isso mudar tanto, cruzar tantas esquinas e tantas coleções de passagens covardes. Por essas nenhumas razões colecionadas nas mesmas prateleiras. Mas era um sopro, um respirar de ar limpo e fim.
Depois disso é só nota de rodapé, a agonia da procura. Corremos longe demais no primeiro entusiasmo e não deu tempo de voltar. Ou voltamos e não percebemos, não sei. Só digo que não.
Então, quando ela me provocava com seus sólidos eu a beijava e limpava sua boca dessa acidez toda. Eu sempre buscando sorver um pouco daquela sala, enfrentava a intimidação da coragem que só ela teve, e vasculhava ali. O gosto me doía, mas era macio.
Depois de um tempo, a gente nem sente mais. Depois se goza e se deseja que tudo fosse como antes, sem aquela invasão toda. Quase dá para se desejar ter alguns botões a mais na calça, só para ter o prazer de vê-la abrindo-os um por um, em pura ânsia, infinitos. Mas chega o fim, e é tudo meio sujo mesmo, ainda bem que a gente nem sente mais.
E assim, se desaprende a não ficar sozinho, por fim. É um vício. Acho que é de todo humano: uma vez achado um espaço confortável em nós mesmos se torna impossível sair. Ela me ensinou, certamente, a não tê-la e nem sentir mais - sem querer.
No começo a buscava. Buscava sem saber o porquê da busca, jogando a culpa toda na sala que me exilou. Quando percebi, porém, soube não ser mais o começo e fui embora.
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Alice
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11:33 PM
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Wednesday, May 23
dois mundo
Vi seu rosto num reflexo rápido e achei tudo mentira, pura petulância, então inventei contornos novos para substituir. Não tive que suportar muito, porém, minha criação. Quando se virou para mim, possivelmente não para me ver, passou tão poucos segundos assim que não foi esforço nenhum sustentar minha imagem na frente da verdadeira.
Logo me desferiu uma cara de desdém e, antes que eu pudesse decidir se era minha imaginação ou força dele mesmo, aquele tédio por mim, se virou novamente para a janela.
Continuou a pressionar aquela coisa toda dele para dentro da sala, alargando cada frestinha aberta, cada espaço desavisado. Por mais alguns segundos, enquanto eu me recuperava do adeus, assistindo minha alma tremular para fora do contorno, ele continuou lá, extremamente de costas, de pé.
Depois virou e se foi.
Tomei o cuidado de esperar que fosse bastante embora, e então me virei para a sala dele. Mirava-a de longe, empoleirada num banco e absorta na imagem nova que figurara. De repente uma superfície gelada encosta em meu nariz e eu vejo o vidro. Orgulhosa, olho para os dois lados num impulso e, quando volto, a porta do outro lado se abre.
Ela entra. Sem medo, leve, como se o ar ali dentro não oferecesse barreira alguma. Respira fundo e traga toda aquela coisa que estava embolada entre o oxigênio, tudo o que ele tinha deixado lá, ela estoca sem se abalar. Abre os olhos e vê minha careta patética espremida no vidro sujo, sorri.
Dei a volta e entrei na sala.
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Alice
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9:20 PM
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Tuesday, May 22
um mundo
Tem dias que acordo doída de tanto espremer os olhos para não acordar. Neles estocada, calculo, devagar, quantos minutos mereço gastar para fazer um chá. Quem sabe chegue logo, quase despercebida, a hora do jantar. Visto-me. Atravesso meio sem rumo as ruas, apalpo o ombro, a nuca, tira a blusa: estava do avesso.
Nisso uma senhora me olha de atravessado e me lembro que me enfiei tão pra dentro que ninguém me vê. Mas acho que ela viu, então fingi que não. Enquanto ela fazia questão de me olhar eu me engolia mais e mais, em puro simbolismo. Mas minha realidade é míope e eu troquei tudo pelo avesso.
Pode ser uma busca de vida, se deixar. Mas ela vai e volta igual, impaciente, querendo logo outra. Nessa ânsia assim, acordo de sobressalto, mais uma vez no dia, escuto um bom dia rouco de uma vontade de não ser eu, sobrevivendo, mas outro qualquer. E quanto mais qualquer, melhor.
Continuei andando na fobia de quem tem certeza de que vai sumir num dobrar de esquina qualquer. Mas a maioria dos dias acaba antes mesmo de eu encontrar a esquina em que quero me deixar.
Hoje eu acabei. Acordei, hoje, cronologicamente seguindo a aparição de um dia anterior inacabável. Ontem foi uma vida inteira de várias horas. Mas isso acontece quase sempre. Já vivi assim varias vidas, recolhida, num amontoado de espera.
Num dia assim, meio asmático até, decidi roubar uma vida. Acordei especialmente aos poucos, me sentindo indulgente, um pacote bem mal embrulhado no estômago.
Sai correndo pela rua, desacreditando do lado certo das coisas. Com o passar do tempo corria mais devagar. Mas logo parei com isso e me deixei andar. Dissecava a todos na rua e tentava me sentir pode dentro de cada pele, desejei intensamente ser cada pedestre, cada motorista, cada criança arrastada, cada um. Um por um e bem intensamente, pra sentir bastante qualquer coisa fora daqui.
Não era felicidade, não, que quis ser bem mais simples que isso. Buscava apenas absolutos baratos, alguém que pudesse ser concreto o tempo inteiro, livre das minhas diluições aguadas.
Esbarrei em um muro e parei por um instante. Bem pouco para não me arriscar.
Entrei em uma rodoviária e comprei uma passagem para o Próximo Ônibus. De certo teria comprado uma passagem para o Próximo Vôo se estivesse em um aeroporto, com a mesma intensidade com que compraria um bilhete para a Próxima Sessão se estivesse em um cinema. Estava fora de mim, finalmente.
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Alice
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12:35 AM
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Tuesday, May 15
sem mais
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Alice
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4:45 PM
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Saturday, May 12
quem sabe outro dia
já passou, já passou.
mas não foi embora, nada.
que pena que eu queria tanto
embora, não tenha tentado.
tá passando, tá passando...
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Alice
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5:31 PM
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Thursday, May 10
continua
pra quem por quem a quem, onde vai
me encobre esconde remonte dispersa
me cura retruca cutuca, aqui vai
incrimine reprime insiste, repete
ilude.
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Alice
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11:32 PM
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Wednesday, May 9
não se esqueça do sorriso na cara
É um porque que me foi embora. Um porque tinha a mim. E eu tinha como ao porque dizer. De dito ao dito muitas vezes, não tenho mais.
Peso em gritar. Só, nisso. Mas quando vou ver, abafo. É um grito transparente sussurrado, meio manco: mas com pressa. É bem feito de ver.
Oscilando. Se derruba eu subo. Invento qualquer coisa e, mesmo que seja a vida, eu assumo. Todos os pronomes e artigos indefinidos que preenchem as lacunas, eu oculto. Deixa como que meio a meio pra lá. Me cubro e durmo. Cubro-me, digo.
Não ao ter coisas. Tenho o passado que me foi imposto pelo ir, mesmo dizendo não ao ir das coisas.
Retratos de passado, então, que não pude deixar:
Muita, muita coisa especificamente não lida.
Ela estava deixando o cabelo crescer e tinha um amor para a vida inteira, por assim dizer. Então discou muitos números e quando parecia absorvida na questão do porque da ação de apertar botões no teclado do celular, quadrado, é chamada discar, ele atendeu. A voz chega mal-feita, distante. É que alguém que se ama para a vida inteira mora longe. Por situações como essa ele quer viajar muito, muito, quando tiver dinheiro, para vê-la vestida nos cabelos longos.
Pouca, desisto.
Ou quando se está tão assim que tudo é sadicamente pesado, uma porta estúpida de vidro, longa, longa, te espera e supera a qualquer momento humano. Um sorriso remove a hipocrisia da proteção, e tudo volta. Em forma de ânsia. Já se sentiu tão triste a ponto de sentir falta do desespero quando de súbito o tédio te espanta? É só, pura tristeza.
Oscilando, verdade.
Tinha um caderninho preto que me foi roubado. Às vezes me faz uma falta... E eu sinto uma saudade doente dele todo, e de onde ele vivia.
Por isso esqueço um pedaço dos retratos.
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Alice
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10:41 PM
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Friday, May 4
sem abril
só chega se os outros forem embora.
mas todos que tenho aqui
engasgam.;
então não faz diferença.
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Alice
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10:26 PM
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retiro
-não trouxe.
Sorriu.
A gente sempre vai tirando a roupa ao chegar nos quartos, juntas. Ela primeiro, odeia ficar de roupas em quartos com espelhos. Ou é só comigo.
Tira a blusa. Ela tá feliz hoje. Só feliz. Eu só assisto. Tento não me preocupar com a impossibilidade de assistir assim, pra sempre, mas ando desenvolvendo minha habilidade de abstrair de mim. Eu quase nem existo por muitos segundos, as vezes.
Ela tira a blusa e se olha no espelho, na maior petulância. Ta querendo se ver, mesmo, só ela. Tem gente que alega procurar incoerências no corpo, isso e aquilo, ela não. Só se admira e se desafia, olhando de cima a baixo. Estava bem. Agora não mais. Sim, achava novamente, e se posava toda no tal espelho.
Eu fingia que lia. Num impulso, apoiei o livro na cama e arranquei a blusa. Arranquei mesmo, porque ela enroscou no meu brinco e eu não parei, foi tudo. Joguei fora e fingi que não. Peguei meu livro de volta, deitada.
Perguntava-me amenidades e eu fazia que não tava nem aí. Mas quem não estava era ela. Nunca estava, nunca esteve. Tirou a saia e não consegui recuperar nenhuma imagem que me lembrasse de como era ela vestida. Provavelmente era apenas ela, nem aí pra nada, as vezes nem aqui.
Eu, sozinha. A final, tirei a saia também. Não, eu tava de calça. Então tirei a calça.
Mas levantei.
Ela continuava a se espelhar pelo quarto, e a falar. Fala e quase demais e sempre e muito alto. Esporadicamente mandava-a calar a boca, com um sorriso na boca. Sempre nada acontecia.
Toda aquela força me oprimia. Meu calar queria feri-la, diminuí-la e alguma forma. E eu só fazia calar. Quanta força, caralho.
Caralho pode? Ela não gosta de caralho. Calou-me.
Cansei. Postei-me no espelho, atrás dela. Nem se moveu. Desumana. Não, sobre-humana. Ou deixa pra lá, que ela tirou o sutiã.
Não vou, não. Eu odeio ficar pelada. Ela sabe. A gente sempre tira a roupa nos tais quartos com espelhos. Ou talvez seja conosco.
Só pra ver melhor. Ver o que as pessoas todas, quase todas, não vêem. A gente fala e desveste.E tento ver. Eu ponho os óculos, se quiser... Não, ta, eu tiro. Não encosta. Estou te vendo toda, mesmo assim, tira a mão da frente do peito agora.
Ela se tirou toda da frente do maldito espelho. Caralho, ela era grande. Desculpa, sem caralho. Somos só eu e você, ta vendo?
Viu, viu mesmo. Você ta menor que da ultima vez, disse. Perna menor, barriga menor. Está mais magra? Cabelo menor, olhos, seu olho está pequeno, se escondendo pra dentro.
É a alma, foi a alma que encolheu.
Nem me ouviu. Ela não liga para meus disparates... ou vai ver minha voz também encolhera. Cordas vocais apequenadas, e ela nem me ouviu.
É, já tinha dito isso, mas nem me ouvi.
Se pôs na frente do espelho outra vez e me humilhou. Era grande, de verdade. Colorida. Nunca vou parar de me impressionar com o quanto algumas pessoas conseguem carregar as cores. Elas simplesmente estão ali: na pele nos olhos na boca. Engraçado, são as mesmas que as minhas, só que as minhas não estão aqui. Engraçado isso.
Tentei de novo, com calma. Posei pro espelho. Atrás dela, lógico. Espelho ela eu. Meio vestida, ainda. Mas ela me cobria mais, me escondia.
Não segurança. Estendi o braço o máximo que pude e ela não saiu do lugar, e não alcancei nada. Ela estava longe e eu não sentia nada, só o medo. Esse medo eu conheço, mas ainda me dá e me leva.
Tentou me encostar, por fim. Eu pulei. Sai daqui, acaba com isso que você é tanto que não cabe em mim e me arranca o ar e eu viro criança e tanto de pequena e pequena que choro e sumo. Choro feito criança e sumo. Escrevo feito criança e sumo.
-que bom que você veio - eu tentando buscar um fim, pra poder parar.
-que bom que a gente veio – me disse. Só disse, não respondeu, disse.
Sorri. Melancólica. Não, irônica. Mas esse ela não viu, que já estava debaixo do chuveiro.
Só você veio, meu amor.
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Alice
em
12:20 AM
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Thursday, May 3
minha criança com raiva
Atrevimentos que exilamos do conseguir por faltar espaço. Falta nada, sobra. Sobra um monte de coisa que a gente não usa por medo do tamanho que nasce. Tamanho nasce e ninguém guarda, mais.
Vai e fala que prende. Prende onde. Inventa encurralos e sem saídas só pra poder chegar mais cedo em casa e esfolar o travesseiro, mais um pouco.
É que não pode, não. Se vive pra sempre, reprime. Se não vive, vive assim mesmo.
por
Alice
em
12:54 AM
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Wednesday, May 2
crônicas
Vai embora
porque
eu quero
me fala
vai. De frente
por que
não
te quero
mais
mas
Joga no meu colo. Eu seguro, já falei, seguro tudo. Me seguro, aqui, sentadinha, enquanto você vai embora. Pode ser de costas, já tantas vezes se jogou no meu colo, mas eu não. Nunca te dei as costas, nunca baixei a cabeça, nunca te dei a nuca.
Porque?
Eu tropeço.
Mentira
tá, pra não te perder
vista
é minha.
Adiós. de Marques anunciado.
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Alice
em
5:23 PM
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Saturday, April 28
100
me inventa uma palavra pra pensar
que as que eu tenho são todas ruins.
eu bem quis, sem assim.
cem, sem texto.
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Alice
em
10:05 AM
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Thursday, April 26
eu não passado
october, 16
http://desmudo.blogspot.com/2006/10/obrigada-pro-me-dar-inspirao.html
october, 21
http://desmudo.blogspot.com/2006/10/poluio.html
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Alice
em
10:58 PM
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daquilo que eu disse
Nós fingimos que sabemos o que vemos dessas pessoas em que a rua vai passando por cima e por baixo e direita e esquerda e que nem vê a gente. Pessoas que decidiram desistir de passar e ficaram esperando o movimento contrário. Gente de pontas lascadas que já nem tropeçam porque assumem logo as pontas pra arrastar. Aqueles que não medem os barulhos que cometem e se desvalem dos disparates que falam à própria sujeira. Falam pra si tanto quanto falariam pra um outro qualquer, mas falam sem engasgar, com aquela paixão doentia pelo tanto faz. Tem gente que já se entendeu e achou melhor voltar. Dessas pessoas que já não remetem a silêncio para significado nenhum, falou e calou com a mesma paz de piscar. Os dois olhos.
Eu ando na rua.
E eu tento acreditar. Eu quero ser, eu corro atrás, me foco me olho me busco. Cansei. Sou fútil. Fútil não, leviana. Meus chocalhos são todos de pano e me faço ver pelos engasgos que dou nessas pontas. É uma implosão muda o som que engulo, de novo, sem tossir. Me corrijo e volto. Tento caminhar como quem desvaleu, mas ainda tenho composição, por mais involuntária que seja, é. Certeza que é porque tem gente que viu. Viu ou eu mostrei sem querer, separei meus panos pra mostrar uma cicatriz qualquer. Foi impulso lúdico, um susto e. Emudeceu.
E tem o poste, que faz barulho mesmo, e acabou pra mim. Só pra mim. Porque não pára, nem para, na verdade. Mas eu gosto de me incluir nos limites racionados.
É barulho indiferente. Fica parado, não segue. Tanto, que parece quase erro, mas não é chiado, é zumbido. É quase zombaria. Ouve-se se quiser. Quando se pisca pra fora e o ambiente que se respira passa a ser mundo que se respira. Houve-se se quiser. Se não for ocupação demais encontrar o chaveiro certo onde se pendurou a chave, o maço onde se guardou o isqueiro, a frase feita a se gritar a faixa de pedestres.
Ouve-se caso a luz não ensurdeça antes. Holofote aquele que permeia correres em falso e corredores sem porta. Que joga a luz na tua cara quando alguém puxa a ponta mestra fazendo cair tudo. Lustra tua pele num amarelo queimado, bem dentre o momento de nudez crua, analítica, sendo tudo bem observado, uns olhos focados nas partes que você mais odeia do seu corpo: todo nu, vulgarmente despido, inteiramente descoberto, perfeitamente exposto, clinicamente pelado e infinitamente leviano.
E que faz barulho, faz. Sem metáforas. Mas que emundeça antes, ao menos.
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Alice
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5:11 PM
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Monday, April 23
personificação
Era cedo e era calmo, temperatura certa daquela que faz esquecer. Daquelas que crer não ter nada sobre a pele e, de verdade, nem a pele a gente sente ter. Nada e eu e aquelas blusas folgadas no corpo, desapegadas e não querer nada com nada, mesmo.
Quanto por ralar esperando nas pernas branquíssimas estendidas na poltrona da frente. Era um falar ruidoso e uma risada vazia, que na época eu nem sabia ser pura limpeza. Tudo bem seco, nenhum molhado no rosto, nem nas mãos. Pupilas limpas.
Pegava sua mão, tão clara também... não posso me esquecer como nos éramos tão branquinhas. E a sua mão, também era apenas fina. Inábil, você dizia, fria, dizia eu. E era de novo o riso pálido o que me devolvia, jogando os dedos displicentes pra qualquer lado, desaperturbados.
Não, o que não posso me esquecer é do riso. Posto que também era tão branco, mas é o som que me intriga. Um riso apressado que espalhou seus soluços há um tanto tempo atrás. Fui buscá-lo ontem. Cheguei a tempo de pegar o engasgo final, na mesma poltrona. Invadiu meu mingo e me deu todas aquelas imagens de um passado artesanal feito por tuas mãos. E elas nem se sujaram.
Mentira, minto outra vez. Vai ver é ignorância mesmo, vai ver ainda a insensatez. É tanto fingir que até rimei. Vou fazer de conta que foi sem querer. Primeiro porque foi mesmo. Mas também porque me deu inquietação de achar que me engano e acredito, agora.
Verdade desde que era simples, e nem era lá tanto. Era você e eu. E podia ser você e eu também, depende, dava pra ser. E não tínhamos termos específicos, nem a madrugada, nem vinho nem calmantes e os outros todos, nem o sexo, que suja tudo. Nem andar andava, que andavam pra mim. Sabíamos tudo e carregávamos no arrastar do sapatinho de boneca gigante. E nem era lá tanto.
Mas eu sonhava. Eu criando demais e ainda penso. Agora penso no que fazer depois de ter feito, mas o erro foi antes. Antes do riso calmo eu angustiava a curiosidade, eu queria e imaginava no caminhar os arranhões que ia me causar. Eu queria varias coisas e agora tem tudo. Depois da madrugada e o cansaço todo. As tardes ocupadas com o sobreviver ao dia anterior. Quem sabe o depois. Queria sua paz, mas queria mais. Eu consegui mais e eu te quero de volta, agora. Entendi.
Mas nem tem você mais, tem?
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Alice
em
12:04 PM
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Thursday, April 19
Tuesday, April 17
metalinguagem
Sou uma exibicionista, e daquelas fáceis de satisfazer. Só escrevo aqui em forma, assim, para que a idéia se torne coisa a mostra para alguém fora de mim. Mas é sempre coisa contornada de palavras, de destino marcado a não ser.
Fui pragmática, talvez. Como já disse, vejo essa necessidade de impactar que me balança entre extrema sinceridade e extremas afirmações, das quais nem eu mesma sou completa adepta. É esperança, e só.
Quem sabe um dia eu pare. Questiono se houve uma vez. Eu questiono tudo e não tenho paciência de ouvir as respostas. Mas pergunto quando foi que meus esboços de mundo viraram mundo antes mesmo de passar pelo desenho.
Mas o sonho, esse não tem linhas.
por
Alice
em
10:51 PM
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Monday, April 16
observando vida
Olha para o espelho. Sou bonito. Não, não sou. Não é. É comum. Tem traços limpos e claros, da idade. Cabelos jovens, tudo mérito do tempo, nada seu. Começa a imaginar aquela figura saindo de casa pela manhã, uns óculos enormes postado na cara, uma xícara de café que impregna segurança naquele corpo incerto. Os cabelos, ainda jovens nessa manhã, frescos do banho apressado, dando uma sensação de possibilidades leves que será levada pelos primeiros carros a ensurdecerem o silêncio da rua. Mas ainda é uma manhã, e ao passo de que não se trancou para fora do portão, nada pode ser muito assustador.
Nada pode ser porque você está só olhando. De alguma abertura no espaço, numa metafísica superior, assiste sem se mover o trocar de pernas duro, tentando marcar o ritmo da música que pensa escutar para o próprio proveito. Ele, você vê. É tudo mídia. Você sabe, ele sabe, mas ainda assim anda marcando os próprios passos por ela, por questão de afirmar liberdade.
Olha para o relógio. Está adiantado, muito. Pensa, graças a qualquer coisa eu aqui, sentado, vendo. Esperar acontecer o tempo é uma agonia desnecessária.
E aí você se lembra do por que. Se lembra e continua a se afastar.
O tempo presente já não precisa ser seguido. A consciência é tomada, ou a aceitação, de forma educada, de que o tempo é um egoísmo que não se importa em ser diagnosticado. Não se importa se jovens ou adocicados, se é a manhã em que se fecha o portão ou a madrugada em que se abandona a porta aberta por puro tesão. Importa, exporta. O que quer que seja, é deixado. Vamos considerar num âmbito de vida inteira. Quem sabe melhor que quantas vezes se vira a chave na fechadura, seria melhor se assistir só as considerações finais. Quantos dias houve prazer nos dedos de quem abria a porta, ou quantos gozos vieram dos dias em que porta nenhuma foi vista até já tarde da noite. Ou quem sabe apenas, o que deu de errado.
Você imagina aquela criatura mediana, que agora deu o último gole no café, como uma foto num álbum de família que nem é a sua. Fica especulando o que foi feito de errado por aqueles olhos, aquela boca e aquele nariz, para que as coisas tenham sujado todas. Era uma bela boca. Vermelha, bem feita. Tudo mérito da vida, nada seu. Mas o que foi que você, ou talvez ela, que no começo era ele, quem sabe a boca, fez de tão indecente?
É uma forma simples de pensar. O erro, a conseqüência, fim. Uma figura que foi infeliz na vida. Nenhuma palavra a mais. Coitado, coitada.
Você pensa, terminou. Pode fechar o álbum e procurar algo de melhor para fazer. A história dos grandes passos duros e infelizes rua abaixo, acaba. Você está distante, sem incoerências emocionais, nada de envolvimentos. É sou uma personagem.
Você não quer fazer nada. Mas a merda é que a gente quer, sim. A merda toda mora no fato de que queremos ser felizes, encontrar a felicidade, encostar-se à boca do que quer que seja, e ser. A merda inteira é que a gente não pode evitar querer essas coisas, por mais que seja coerente.
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Alice
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12:38 PM
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Saturday, April 14
vida fácil
Meu corretor ortográfico não conhece a palavra tesão.
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Alice
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11:40 PM
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Friday, April 13
mas acontece que sou triste
De cara aberta, olhos da mesma cor de tudo: cinza. Num tom sólido do ser. Superior, determinado, um nobre. É tristeza. A boca parece que cresce, se faz de base para o olhar desistente. A gente cai, e isso é bonito.
Gosto ainda mais da tristeza afrontada. Cabelos jogados presos todos para trás. Nada de esconder coisa alguma debaixo de fios, é de cara limpa que se enfrenta o encinzentar da face. Os olhos brilham. Molhados de uma lágrima intimidada, que se prende: é muita sobriedade.
De tanto usar as palavras a gente gasta por dentro. Colocando todo o calor nas frases em que tento cuspir o que eu quero, por favor, que entendam. E antes que eu mesmo comece a duvidar de mim e acreditar nos disparates que me devolvem, um frio inconsolável me treme. Treme menos porque mover dói, senão tremia bem mais.
Ainda assim, tem algo de belo. A gente se recolhe e se encolhe sozinho. E ainda assim fica grande. É quase alívio compulsivo. Ainda assim, quase. Quase.
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Alice
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10:57 PM
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capítulo 10
Andando por um chão viciado de meus passos mancos sempre sinto uma picada na sola do pé, é real e recorrente. Encontro pelo caminho pedacinhos transparentes. Catatônicos pedaços do que quebrei e não tive coragem o suficiente para recolher. Talvez não coragem, apenas uma intenção mais forte, onde nem me arrisco a evocar vontade. Vontade é uma paixão que não existe apenas por cacos de vidro.
Estática, observado o espalhar de vários corpos que fiz escapar de minha mão. Não que seja proposital, mas minha idéia primeira é sempre despedaçar mais e mais. Até que os pedaços se tornem menores e menores e areia. E eu possa, então, destinar-me obsessivamente a recolhê-los todos, grão por grão, doentiamente acomodá-los, como indivíduos pessoais, numa caixa e devolver todos os quais todos juntos, ao exato chão à que pertenceram antes de se espalhar debaixo dos meus pés.
A falha é que nunca me importei com a procedência de meus vidros para ter agora a certeza de que realmente os coloco de volta no lugar certo. O lugar certo é o ponto crucial e talvez isso apenas me trouxesse a vontade. Mas realmente nunca me importei com a procedência de meus vidros.
Continuo como que fascinada na sujeira toda. Não na sensação de que aquela é a única questão a ser resolvida, mas apenas como uma fuga real, assumida. É fraqueza nos últimos, quase me prestando ao ridículo de chorar por uma morte qualquer que talvez eu escreva sobre e passe a chorar por, apenas pela necessidade de enaltecer uma tristeza melancólica sem nome que impregna, sem que morte de qualquer coisa que seja cause. Fuga da cólica da inércia. Sem mais explicações, caso contrário criaria outra fuga qualquer para dores inexistentes.
Um cigarro em meu bolso que me vejo acendendo e dando um longo trago. Ao passo que não sinto nada ardendo garganta abaixo percebo que minhas mãos tremeram o cigarro até que ele quebrasse. Foi embora. Nada concreto uma vez que empacotaram alguns deles todos juntos. Eu tenho algo mais em algum lugar, mas não vou acender agora porque gosto da falta. Fuga número dois.
Acho que tremi até quebrar, e um pedacinho do meu pé sangra. Não me lembro de ter me movido, mas isso é futilidade materialista e eu estava ocupada em não fazer nada quanto a isso. O que quer que seja isso.
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Alice
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1:09 PM
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Thursday, April 12
lá em casa
-sério?.
-é. As pessoas largam entulho... lixo, sabe. Aí dá escorpião.
-nossa. E mata?
-não. Ah, às vezes, não sei. Depende do tamanho, da picada, de quantos. Mata, às vezes. Não sempre, lógico.
-mas dói? Dói bastante ou mata de uma vez?
-não, se mata, dói antes. Se não mata... também... eu acho, mas...
-e se não matar tem que tomar injeção?
-ah, sim, claro...
-então deixa.
Ficou assim. Eu na cozinha, ainda, minha mãe no corredor, e depois na sala, e o pacote de bolacha: comida porcaria pós jantar não-comido na mesa, na minha frente. Era chocolate.
Vi o pacote comido pela metade. O miolo comido, lógico, pela metade. Pensei em terminar o texto dizendo algo como: fiz as pazes com a mãe levando três bolachas de chocolate, lá na sala. Quem sabe um beijo, numa utopia maior. Não, nem pensei no beijo na hora das bolachas. Mas não deu. Nem me lembro o caminho a essas horas. Nem sala nem rosto.
Fiz as pazes com a mãe deixando as três ultimas bolachas encaminhadas no pacote, pra ela. Na cozinha. E foi o máximo que deu.
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Alice
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11:21 PM
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Wednesday, April 11
sobre água outra vez
você me fez uns 20 anos mais velha hoje.
me pedindo no silencio
força que não tinha
senti a aflição
da água escorrendo palma da mão afora
desidratando e murchando as maçãs do rosto
na pele solta, rugas
expressões na cara
coisa de você, estampada em mim
que me parece inútil agora,
tentar esconder,
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Alice
em
10:51 PM
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Tuesday, April 10
tentei
venho em missão de paz.
largando apenas algumas coisas pelo caminho:
os óculos.
algumas peças de roupa
o caráter
a missão
e a paz. logo assim:
venho.
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Alice
em
2:14 PM
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Sunday, April 8
redime-te
Não posso dizer se os acertos me assustam mais que os desentendimentos.
Mas eu sinto falta. Sinto falta da minha poesia que sumiu dos dedos. Sinto falta das minhas palavras desconexas que faziam todo o sentido para o estado de espírito que eu eventualmente ganhava.
Sinto saudades da minha coleção particular de coisas que só eu podia ver. Escrever. E fingir que o mundo aceitava como arte dadaísta.
O anonimato é ruim, mas não tanto quanto o quase-conhecimento.
O não se expressar talvez traga beleza a única coisa que eu gostaria de fazer. Mas agora nem sei mais me confundir com poucas palavras. Eloqüência. Palavra horrível que destrói. Tentei tanto buscar um pouco dela que, quando achei o porquê de sua existência, descobri porque tanto fugia.
Outra vez, sinto fala de mim. Quero-me de volta.
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Alice
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3:47 PM
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reluto
Trago.
Uma figura de mim num vestido sobre a cama largado desvestido
Sua camisa de botões falsos que arranquei todos tentando abotoar
Sapatos amarrados em hipocrisia de desamar ar
Cinzento.
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Alice
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3:41 PM
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Friday, April 6
realidade
- Como se sente? – uma voz de pés descalços e calça fresca largada nas canelas. Voz de chá de camomila gelado.
Por alguma razão sóbria penso em responder um tudo bem baixo e amigável. Daqueles verdadeiros: a voz baixa deixa clara a verdade que diz que sim, tudo bem em não me contar, eu posso, usando as palavras por mera convenção para manter a formalidade.
Mas a sobriedade engasgou. Umas lágrimas se juntaram ao suor do rosto. Aquela sensação desconfortável de umidade e de fiozinhos de cabelo colando na testa e piorando o aspecto grosseiro do rosto brilhoso. Aquela irritação com a dobra molhada da perna e aquela ardência causada nos poros da canela causada pelo suor salgado. O sol que queima a ponta de um nariz que odeia ficar vermelho. A sobriedade engasgou com o calor. Engasgou e cuspiu toda uma garrafa cheia, cheia de tonturas e desmaios.
- Como me sinto... Sinto como opressão. Como se todos os lados fossem formalmente proibidos. Como se estivesse atrasada para continuar a vida e todas as rodovias de acesso ao mundo certo estivessem cortadas. Ou como se todos os caminhos fossem estreitos demais, e eu tivesse que me espremer entre eles. Arranhando braços, rasgando a saia. Como se em dado momento fizesse um movimento brusco nesse aperto todo, só para conseguir respirar um nada que seja, e um graveto vindo de lugar nenhum arranhasse minha maçã do rosto, cortando toda minha feminilidade. Como se minha mente fosse fraca demais para me guiar para a saída, mesmo sabendo que isso já foi feito antes por gente pior que eu. E por gente melhor. É isso, me sinto no meio. Nem melhor, nem pior. Ordinária, meio largada por ai sem brilhantismos, sem a coisa certa a dizer a quem quer que seja, por alguém certo está sempre o ocupado procurando a saída. Quem sabe encontre, quem sabe se encontre apenas não tão certo quanto eu imaginava, e seja medíocre rodando por esse labirinto claustrofóbico. Assim, me sinto ao meio. Meio querendo sair, meio tentando encontrar os meus iguais perdidos na estrada bloqueada. É uma opressão de não saber nem querer fazer nada do que se tem a fazer, a não ser talvez algo que eu ainda não saiba.
Pausa para trocar o pé em que se senta encima.
- Vai ver, sendo assim tão naturalmente lugar-comum, nunca saberei. Mas acontece.
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Alice
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10:16 PM
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Saturday, March 31
curta-metragem
Se chorei, foi porque tomei consciência de mim como a assassina que sou.
Vê você que é também, se reconhecendo em minhas palavras.
Pretendo andar reto e esmago formigas que ignoro, no chão. Pretendo andar reto e esmago sentimentos que ignoram minha negativa. É morte de seres vivos em busca de vida própria. Orgasmo gelado, afogado nos soluços de vergonha enrolados no lençol. Sufoco.
Mas quebra. Tudo uma questão de tempo.
Ela quebra... pedaço
pedacinho
granulado
poeirinha...
e de agora para um depois que pretendo prolongar, me permito esconder o torto debaixo do meu pé.
descalço...
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Alice
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12:54 AM
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Thursday, March 29
prefácio abortado
São mentiras. Umas que eu tenho vivido, tinha vivido. Algumas outras que outros me fizeram viver. Coisas que eu vi passando e não tive tempo de empacotar. Inverdades mal diferidas, outras agora vômitos. Traguei algumas das linhas e elas se estocaram no meu pulmão. Inventei algumas das páginas basicamente porque não pude evitar.
Agora sinto uma necessidade violenta de me desculpar. Mas eu não vou, preciso do meu orgulho para os pragmatismos da única pontuação que sei usar.
Só o que faço é assumir minha incapacidade de não ser.
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Alice
em
12:40 AM
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Tuesday, March 27
sem motivo
Depois de tanto, a gente passa a se mascarar mesmo nu.
Foi que vi nessa angústia um manifesto loucamente humano.
Segui mãos descolando fiozinho do gel e mão agarrando pernas e mãos e mãos e...
Mãos esquecidas no colo, num certo então.
Nem acreditei no sorriso doce. Daquele que expulsa o sarcasmo por se lembrar de que é solidão, mesmo, o que se tempo pra mostrar.
Foi que vi essa manifestação numa angústia humanamente minha.
Nessas mãos vi minhas mãos suadas amassando meus quilômetros de cabelo, que cortei. Cortei tudo pra fora pra me livrar das lágrimas.
Aquelas que me ultrajaram. Rolaram cachos adentro e umedeceram tudo. Amoleceu os abstratos todos feito papelão, até despedaçar. Molharam tudo, fios, olhos, mãos...
As duas mãos, acho que minhas, esquecidas no colo.
Na descrença da possibilidade do choro, tempos depois; na ironia de um lugar que me lembrava tantas coisas que nunca se deram ao trabalho de acontecer ali: uma lágrima coagulada no canto do olho. Seca. Travando os movimentos da visão, me vidrando num ponto redemoinho de mim mesma.
Ainda bem o sorriso desidratado solo, doce.
Um pouco mais de invasão de mim e eu roubava sua lágrima inexistente e fazia rolar pelo meu colo nu abaixo.
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Alice
em
1:33 AM
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Saturday, March 24
lista
gosto de mim mesma sentada no degrau do jardim
fumando meu cigarro e vestindo minha gola alta.
gosto de alguns homens
um número um pouco menor de mulheres
gosto muito, de uma delas
amei duas, talvez
amei um homem.
gosto de um isqueiro, que eu perdi
de um livro que emprestei para um dos homens acima
verdade que perdi ambos.
gosto de grafite, que é fácil ter sempre
por mais que eu perca, sempre acho.
gosto de manhã de segundas feiras
gosto muito de todos os segundos dessas manhas antes que eu me lembre
que é uma manhã de segunda feira
gosto de água sem gelo
de óculos de sol de lente suja
pra não ver nada.
gosto da minha miopia
só não gosto de mim mesma quando misturada a tudo isso.
Humanamente falando, principalmente.
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Alice
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4:36 PM
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Tuesday, March 20
tentativa de texto menos não-jornalístico
Agulhinhas finas que desafiam meu pânico. A verdade é que me sinto ridícula demais para reclamar da dorzinha infantil das picadas. Nada me tira da cabeça que parte do tratamento é sempre reduzir o paciente à consciência de quão patético pode ser seu drama pessoal. Mas eu nunca disse que não era patética, também.
O que eu sinto não é exatamente explicável. Um exaurir de forças que me faz querer coisas absurdas como chegar ao médico e esperar, sinceramente, que ele me cure sem que eu fale muito. Chego a ser ridícula o suficiente para me irritar com a incapacidade do médio de entender meu silêncio. Eu nunca, nunca afirmei não ser patética.
Mais uma chance para me explicar. Enquanto algumas pessoas insistem em dizer que estou muito, muito pálida e que deveria comer um bife para normalizar meu metabolismo pseudo-vegan amarelento, eu sinto minha alma cair fora. Não tenho certeza de que acredito numa alma, mas uma faceta bem transparente de mim se senta ao meu lado e cruza os braços. E meu corpo fica inerte tentando se movimentar.
As coisas ficam em câmera lenta, eu me confundo com as coisas que toco que não sei dizer exatamente onde acabam meus dedos e onde começa o travesseiro que eu agarrei. Eu tenho mania de agarrar travesseiros quando algo me assusta. Por falta do travesseiro eu agarro minha bolsa na rua, o que aparenta ser muito menos infantil, mas não menos lunático. Mas durante meus pequenos ataques de drama pessoal, nem a bolsa se sente.
Talvez fosse uma experiência de contato com o mundo exterior, mas eu me sinto presa demais em mim, tanto ao ponto de sentir ecoar as vozes de pessoas estranhas que falam ao meu redor. Quem são elas todas, afinal?
Melhor. Porque tantas?
Alguém sempre esfrega as mãos nas minhas costas. Eu tento me concentrar nessa mão com toda a minha força, como se uma âncora para a realidade. Mas eu tenho outro espasmo de distorção de mundo e... esqueço da mão.
Às vezes é uma mão pequena de unhas curtinhas e digitais delicadas. Outras uma mão grande e pesada e quente. Mas no fim eu nunca sei diferenciar que parte minha está sendo tocada, ou onde começa meu corpo e termina o gancho de realidade. Mesmo porque meu corpo está do meu lado, de braços cruzados. Sou eu, translucidamente. E eu apenas fico. Desesperadamente apenas fico. Fora. Olhando-me com um olhar pacifico e irônico. Eu peguei nojo desse meu próprio olhar que fico distribuindo mundo abaixo.
É que depois de tanta força para parar a insanidade que eu não comecei, a força foi embora também. Aceito. Até eu quis ir embora de mim. Quem sabe essa descrição ajude minha necessidade de calar. Vou colocar num site de busca, talvez. Vou fazer um pequeno folder e sair distribuindo pelos consultórios da cidade. Eventualmente até para um amigo ou dois, quem sabe mais algumas mãos tentem me trazer a realidade. Ou quem sabe alguém simplesmente concorde: garota, você é patética.
ps: diminuir a manchete.
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Alice
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11:28 PM
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Sunday, March 18
meu pânico
a pequena, a feia, a esquizofrênica, a amável, a louca, a fria, a despótica, a tentativa
é o ego se debatendo nas paredes da sala escura
descascando a tinta.
não quer abrir a porta, não
é só barulho mesmo.
é morte pequena, pura desidratação.
é birra.
não é?
treme
todo dia morremos um pouquinho
mas sempre sobra.
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Alice
em
9:44 PM
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Saturday, March 17
m anda
me deixa,
que eu te seqüestro.
sem seu consenso, sem sua ordem final, sem roupa, que seja, sem querer
que eu meio que quero
te ouvir gritar
um choro de frio, de ódio de mim
pudor arrancado
a malha fina
arrancar tudo pra fora que eu quero de ter envolta em sentimento cor de pele
é novidade
ao meu tédio
saber que sente
minha pele em volta pelas voltas assim, correndo só para sair de mim
que foi a melhor coisa
você
que já aconteceu
aqui.
e agora eu quero tudo isso, pra fora
envolta.
me deixa
que eu te sequestro
pro meu mundo
e a gente some.
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Alice
em
12:53 AM
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Wednesday, March 14
soluço
não vai, não fica
e afinal, nem fiz nada
é amor a coisa nenhuma
daquele de querer beijar deus
na boca de uma mulher da rua.
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Alice
em
10:20 AM
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Monday, March 12
poema vazio
não que eu esteja perdida
nem que essa seja uma condição de mim
que não, me lembro que assim não
por eu, sendo eu mesma
procurar em vãos espaços
buracos e vãos
não...
não que eu procure, mas nem que me perca
é que é tudo igual
o que acontece é que estou sempre no mesmo lugar
tudo é sempre o lugar onde eu estou
e de uma certa forma
nem importa muito para onde eu vá
eu sempre sinto igual
e ele não se comove
nem importa muito, não que seja perdida
não me falta nada... nada.
é só tristeza.
não vês? quão triste estou
é uma ausência
inercia
não vês?
é só tristeza...
por
Alice
em
10:55 PM
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Thursday, March 8
qual o problema
Eu tenho livros de não me lembro de ter comprado, livros que li pela metade, um filme enfiado no dvd goela abaixo. dvd que assisto todas as noites, e não acaba. De uns tempos pra cá ando tendo medo de gastar meus minutos de filme restantes. Ligo a tv e tento dormir no frio da tela congelada, ou passo pelo medo de gastar alguns segundos de movimentos. Tô economizando pra não ter que encarar o fim. Tô te economizando pra não encontrar o teu fim. Que o fim sempre tem gosto amargo. Gosto de filtro de coisa que eu não sei o que é.
Tô tentando chegar livre ao fim, mas não vai dar. Tentando chegar de ideias ao fim, mas elas se misturam e eu já nem sei mais por onde estou andando.
é tudo uma mistura de sempre a mesma coisa
estou correndo agora.
por
Alice
em
11:11 PM
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Tuesday, March 6
capital letter
nesse meu bloqueio mental instigado pelo meu vício nicotina e cafeína gelada, eu encontro movimentos que me delatam. avesso minha bolsa procurando me livrar do tabaco espalhado, marco páginas do meu livro com um isqueiro. hidratada pelo império coca-cola.
marlboro light, coca light. e Christopher Hitchens:
"Imagine um Estado de Beatitude, Felicidade e Harmonia Perpétuas, e Você Terá Criado uma Versão do Tédio, da Inconsequência e da Previsibilidade."
por
Alice
em
12:36 PM
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Monday, March 5
fantasmas
Comprou uma cartola e uma bengala. Só de sacanagem mesmo, queria fazer uma graça. A vida andava meio séria ultimamente e a ideia de estagnação manchava de aflição um momento de paz.
Era uma cartola arredondada, sabe-se longe o nome daquilo. Deixou a classificação futilmente morrer na cabeça e se postou perante ao espelho.
Achou uma camisa. Era larga, mas confortável. Tirou o sutiã e se enfiou naturalmente dentro do linho, sem esconder suas marcas.
Tentou uma gravata, mas não sabia dar o nó direito e se sentiu meio ridícula com aquela bolota no colo.
De repente, um cansaço. Soltou a pose. Tirou o chapéu e a camisa e a calça e tudo. Jogou-os todos numa pilha coroada pela bengala e fez de si mesma uma outra pilha. Espremidinha na cama. Se dobrava inteira, sempre tomando o cuidado de observar o Tédio.
Sentado em meu sofá, um homem. De chapéu, bengala e cara, paralisados. É um tédio fantasmagórico. Muito, muito sólido.
Uma figura figurante.
Mas eu, não. Eu só assistia da porta, e não me prestei a nada.
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Alice
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1:56 PM
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Sunday, March 4
Saturday, March 3
pedaço de uma coisa maior
mas me desestruturou. minha boca pede gosto... meu estômago se fecha. é um desacordo total e eu discordo plenamente também.
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Alice
em
1:03 AM
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Thursday, March 1
querido diário
Eu só sei olhar. só consigo escrever sobre o que se sente da história e sobre o que vejo dela. Não sei criar momentos a organizar a idéia em uma cena simbólica.
É como se só dominasse uma parte do processo. Passo por parte dele de forma relativamente simples, mas não volto. Formo cenas piegas e me irrito.
Me irrito. As sensações pequenas dominam minhas reações de mundo. Passo a não ser capaz de responder ao que me perguntam, uma vez que mal ouvi... Estava ocupada no nervoso da falta de eloquência.
Sei só olhar mesmo. O que eu gosto de fazer é assistir aos outros, sem ter que me mover. Assistir, espectar. E posso escrever sobre isso. Ou sobre o que provoca numa eu, parada. Mas não posso descrever. Fica bobo. Não encontro diálogos menos piegas. É quase como se achasse cafona viver...
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Alice
em
9:16 PM
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Sunday, February 25
re a nuncio
ofereço recompensa
a quem me fizer voltar.
ofereço todo o dinheiro que eu encontrar na minha bolsa
no bolso na meia
me vira do avesso, descalça, desnuda
me deixa crua em pele pra eu sentir coisa
ofereço a bolsa
quem sabe até eu mesma.
me ofereço a quem me fizer voltar
do jeito que estiver, qualquer estado
estando
eu fico depois
eu e você, quem sabe
só quero estar eu comigo, os dois juntos
que eu não aguento mais ter que me arrancar de dentro de lugares
dos quais eu nunca quis entrar.
arrombei a porta sem tranca pra sair
e não sai.
não estando, nem sei como
me deixei sozinha do lado de fora
esperando.
ps: e pago em dólar.
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Alice
em
8:36 PM
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Thursday, February 22
Wednesday, February 21
exemplo
Estou tentando descontar minha raiva nas letras. Mas lendo meus textos vejo imagens fortes de idéias concretas que outorguei. Chamei isso de ódio, aquilo de amor, discriminei tudo direitinho, esse meu, outro seu. Tomei no meu próprio cú agora: meu preconceito me irrita.
por
Alice
em
10:38 PM
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eu nem sei mais
Consigo ver as idéias rondando minha cabeça, o que eu não consigo é concentração para extraí-las. Enquanto pensava nisso, nessa frase inteira, diga-se de passagem, me deu vontade de tocar piano. Nunca toquei. Não tenho a menor idéia de como funciona a coisa toda, mas eu tive vontade. E tive que escrever tudo isso num fôlego só, porque a próxima ânsia não vai seguir o padrão. Ponto.
por
Alice
em
10:36 PM
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Sunday, February 18
mergulho
chorei
chorei mesmo e chorei forte
e solucei e meus sufocos ecoaram nas paredes
e eu não sufoquei nada, deixei chorar bem forte
que era pra todo mundo ouvir, nem que não quisesse eu, eles
eu não quero nada..
.chorei mesmo
por
Alice
em
7:51 PM
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Friday, February 16
meio entendido
-tem um fio de cabelo no seu sutiã.
-culpa sua... porque não tirou, afinal?
por
Alice
em
12:48 AM
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câncer
a fumaça do meu cigarro tá violenta hoje
deve estar tentando acompanhar a velocidae dos carros correndo lá embaixo
isso tá me empurrando viatudo abaixo
que hoje eu to devagar
por
Alice
em
12:42 AM
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Wednesday, January 10
ainda sei escrever?
escrevo prosa mas é tudo mentira. é só poesias sem pular linha. é, é poesia mesmo, que de tão miserável, economiza até as linhas a serem puladas e não pula nada, mesquinha na esquina que não dobra.
por
Alice
em
1:10 AM
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