olha sua caneta aqui
Abri a porta de fora para dentro, como se dentro e fora fosse tudo a mesma coisa. Sem esperar grandes novidades adentrei a casa e subi as escadas sem contar os degraus, simplesmente porque já sabia exatamente quantos eram.
Lá em cima, ele me estendeu a mão e me puxou para um abraço espontâneo. Eu fui abraçada no desconforto de achar melhor voltar e contar os degraus. Só para ter certeza de ter entrado na casa certa.
Esses estranhos aconteciam numa noite meio desprevenida. Dessas onde o frio chega amarrado a um ventinho inoportuno que, apesar de arrepiar, não justifica a viagem até o armário só para buscar um casaco.
Ela parou a porta da cozinha e esperou. Foi, voltou, esperou. Ofereci, afinal, um pouco do meu café, só para tentar uma conversa situacional. Com um pouco de sorte poderia até entender o porquê e, se fosse justo, me prestaria a ajudá-la a esperar. Ir, voltar, esperar.
Falei, como segunda tentativa, que o café estava bem quente. Fez uma cara de nojo, por pura preguiça, isso eu entendi. Destronar o calor para não admitir o frio e ir logo buscar o tal casaco. Enojou-se e encolheu-se, com os braços nus.
Decidi que a espera era por mim e derramei o resto do café na pia para poder sair logo dali. Rumei à porta e tentei sair, mas não deixaram. Pediram-me, meio aos gritos, que ficasse. Fiquei no silêncio, só para não aumentar o volume de vozes várias que, como eu, não tinham nada especifico a dizer.
As pessoas sorriam e gritavam em meio às gargalhadas, apesar de a sobriedade imperar. Enquanto tentava me decidir sobre o humor da sala alguém trouxe minha bolsa e, de repente, apenas as paredes do lugar me ofereciam abrigo.
Apoiei-me em uma delas. Depois me apoiei mais. Logo estava empurrando com toda a força a parede para trás. Dei um risinho tênue para tenta me ambientar, mas meu lábio deu uma leve tremida e não fui levada a sério.
Ele e Ela, incrédulos, viraram minha bolsa de zíper aberto no chão, espalhando minhas infinitas peculiaridades que a rotina organizou para mim. Depois da minha risada desafinada, acho que procuravam meu senso de humor e, mesmo que eu dissesse em tom de deboche que a piada não estava boa, era totalmente desacreditada. Então vasculhavam ali.
Em câmera lenta, o cenário de dentro da bolsa foi desmontado sob a mão-de-obra da gravidade. Os objetos caiam no chão e nem quicavam. Caiam como pedaços de coisa sólida destinada a estar lá, atraídos quase que como imãs, e se pregavam no chão como se fosse a última possibilidade de permanência no mundo.
Se postavam ali, observados e discriminados cada um a sua função e o porquê. Eu torcia para que não, mas, se me perguntassem, eu não saberia dizer, para a maioria deles, o porquê exato.
Era um teatro bem abstrato, daqueles que se fazem sozinhos, por juntar vários trechos de coisas que são, quase sempre, bem normais, formando um pequeno apanhado de indiferenças desconexas. Mas era tudo meu, e foi o que eu disse.
Eu disse, mas foi um dizer certo e me calei pela blasfêmia do tom que usei. Queria sair e largar tudo lá, mas me debatia nas paredes que nem se moviam. Não, as paredes não se fechavam contra mim.
Fechei os olhos e tentei imaginar uma cena assim, tão assustadora em vergonha como a que via de olhos abertos, só que de olhos fechados e de pura imaginação, pra envergonhar por dentro e esquecer lá fora.
Lembrei de um dia engraçado em que agarrei as pernas do homem errado no elevador. Ele tinha mais de um metro e oitenta, e eu menos de quatro anos. Fiquei presa àquela calça jeans por alguns segundos, peguei uma caneta do bolso dela e comecei a brincar. Brinquei até ouvir a risada familiar das pernas de quem achava estar agarrada.
Ouvi a risada do lado de lá, desmembrada de onde eu segurava. Olhei pra cima e vi um homem errado grudado às pernas em que eu grudava. Soltei correndo aquelas pernas e voltei-me para as minhas, para aquelas que eu achei estar agarrada desde o começo.
Peguei-as com calma dessa vez. Não apertei muito, talvez por precaução, mas principalmente porque eu estava ocupada apertando ao máximo os olhos pra mantê-los bem fechados e ter certeza de que ninguém me via por fora.
Abri os olhos, afinal, com medo de que tivesse perdido alguma coisa importante por aqui. De todas as coisas espalhadas e todo o barulho desorganizado que eu não conseguia por bem escutar, achei ali um pedaço de passado que me recuperou o senso de humor.
-Olha sua canela aqui.
-Não é minha.
-Eu sei.
Lá em cima, ele me estendeu a mão e me puxou para um abraço espontâneo. Eu fui abraçada no desconforto de achar melhor voltar e contar os degraus. Só para ter certeza de ter entrado na casa certa.
Esses estranhos aconteciam numa noite meio desprevenida. Dessas onde o frio chega amarrado a um ventinho inoportuno que, apesar de arrepiar, não justifica a viagem até o armário só para buscar um casaco.
Ela parou a porta da cozinha e esperou. Foi, voltou, esperou. Ofereci, afinal, um pouco do meu café, só para tentar uma conversa situacional. Com um pouco de sorte poderia até entender o porquê e, se fosse justo, me prestaria a ajudá-la a esperar. Ir, voltar, esperar.
Falei, como segunda tentativa, que o café estava bem quente. Fez uma cara de nojo, por pura preguiça, isso eu entendi. Destronar o calor para não admitir o frio e ir logo buscar o tal casaco. Enojou-se e encolheu-se, com os braços nus.
Decidi que a espera era por mim e derramei o resto do café na pia para poder sair logo dali. Rumei à porta e tentei sair, mas não deixaram. Pediram-me, meio aos gritos, que ficasse. Fiquei no silêncio, só para não aumentar o volume de vozes várias que, como eu, não tinham nada especifico a dizer.
As pessoas sorriam e gritavam em meio às gargalhadas, apesar de a sobriedade imperar. Enquanto tentava me decidir sobre o humor da sala alguém trouxe minha bolsa e, de repente, apenas as paredes do lugar me ofereciam abrigo.
Apoiei-me em uma delas. Depois me apoiei mais. Logo estava empurrando com toda a força a parede para trás. Dei um risinho tênue para tenta me ambientar, mas meu lábio deu uma leve tremida e não fui levada a sério.
Ele e Ela, incrédulos, viraram minha bolsa de zíper aberto no chão, espalhando minhas infinitas peculiaridades que a rotina organizou para mim. Depois da minha risada desafinada, acho que procuravam meu senso de humor e, mesmo que eu dissesse em tom de deboche que a piada não estava boa, era totalmente desacreditada. Então vasculhavam ali.
Em câmera lenta, o cenário de dentro da bolsa foi desmontado sob a mão-de-obra da gravidade. Os objetos caiam no chão e nem quicavam. Caiam como pedaços de coisa sólida destinada a estar lá, atraídos quase que como imãs, e se pregavam no chão como se fosse a última possibilidade de permanência no mundo.
Se postavam ali, observados e discriminados cada um a sua função e o porquê. Eu torcia para que não, mas, se me perguntassem, eu não saberia dizer, para a maioria deles, o porquê exato.
Era um teatro bem abstrato, daqueles que se fazem sozinhos, por juntar vários trechos de coisas que são, quase sempre, bem normais, formando um pequeno apanhado de indiferenças desconexas. Mas era tudo meu, e foi o que eu disse.
Eu disse, mas foi um dizer certo e me calei pela blasfêmia do tom que usei. Queria sair e largar tudo lá, mas me debatia nas paredes que nem se moviam. Não, as paredes não se fechavam contra mim.
Fechei os olhos e tentei imaginar uma cena assim, tão assustadora em vergonha como a que via de olhos abertos, só que de olhos fechados e de pura imaginação, pra envergonhar por dentro e esquecer lá fora.
Lembrei de um dia engraçado em que agarrei as pernas do homem errado no elevador. Ele tinha mais de um metro e oitenta, e eu menos de quatro anos. Fiquei presa àquela calça jeans por alguns segundos, peguei uma caneta do bolso dela e comecei a brincar. Brinquei até ouvir a risada familiar das pernas de quem achava estar agarrada.
Ouvi a risada do lado de lá, desmembrada de onde eu segurava. Olhei pra cima e vi um homem errado grudado às pernas em que eu grudava. Soltei correndo aquelas pernas e voltei-me para as minhas, para aquelas que eu achei estar agarrada desde o começo.
Peguei-as com calma dessa vez. Não apertei muito, talvez por precaução, mas principalmente porque eu estava ocupada apertando ao máximo os olhos pra mantê-los bem fechados e ter certeza de que ninguém me via por fora.
Abri os olhos, afinal, com medo de que tivesse perdido alguma coisa importante por aqui. De todas as coisas espalhadas e todo o barulho desorganizado que eu não conseguia por bem escutar, achei ali um pedaço de passado que me recuperou o senso de humor.
-Olha sua canela aqui.
-Não é minha.
-Eu sei.
Se a vida realmente é coisa pensada, por certo eu deveria ter visto, naquele dia, todo o dia de hoje. Mas o destino se atrasou, eu acho. E apesar de tudo chegou à risada na hora certa, sem vergonha, com cara de quem sabia mais do que fazia por saber.

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