Wednesday, May 23

dois mundo

Foi então que o vi, pela primeira vez. Olhava para dentro de uma janela, de costas para mim, mas eu não me ofendi, não. Ficou longos segundos intrigado com o interior da sala, vazia. Seus olhos enchiam o ambiente com uma densidade significativa. Brigando com o vidro, penetrando em cada espacinho, sendo atropelado pela janela toda, invisível, que o empurrava para fora.
Vi seu rosto num reflexo rápido e achei tudo mentira, pura petulância, então inventei contornos novos para substituir. Não tive que suportar muito, porém, minha criação. Quando se virou para mim, possivelmente não para me ver, passou tão poucos segundos assim que não foi esforço nenhum sustentar minha imagem na frente da verdadeira.
Logo me desferiu uma cara de desdém e, antes que eu pudesse decidir se era minha imaginação ou força dele mesmo, aquele tédio por mim, se virou novamente para a janela.
Continuou a pressionar aquela coisa toda dele para dentro da sala, alargando cada frestinha aberta, cada espaço desavisado. Por mais alguns segundos, enquanto eu me recuperava do adeus, assistindo minha alma tremular para fora do contorno, ele continuou lá, extremamente de costas, de pé.
Depois virou e se foi.
Tomei o cuidado de esperar que fosse bastante embora, e então me virei para a sala dele. Mirava-a de longe, empoleirada num banco e absorta na imagem nova que figurara. De repente uma superfície gelada encosta em meu nariz e eu vejo o vidro. Orgulhosa, olho para os dois lados num impulso e, quando volto, a porta do outro lado se abre.
Ela entra. Sem medo, leve, como se o ar ali dentro não oferecesse barreira alguma. Respira fundo e traga toda aquela coisa que estava embolada entre o oxigênio, tudo o que ele tinha deixado lá, ela estoca sem se abalar. Abre os olhos e vê minha careta patética espremida no vidro sujo, sorri.
Dei a volta e entrei na sala.

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meio cansada icontinente. self-service de mente. orkut