três mundo
A partir daqui, tudo é mais passado ainda, de uma vida que tive logo que largar, uma vez que por ela fui achada.
Seu nome era Raquel.
Na verdade, não era. Mas queria que fosse então finjo. Acho que, pela necessidade infantil de sentir mundo, só posso chamar uma pessoa de algo que realmente acredite, e eu tenho certeza de que apenas Raquel poderia carregar tudo aquilo nos pulmões.
Se digo que seu nome era Raquel, é porque é isso que eu sabia, desde antes de me sentar no banco, não me importando com quantos outros de que a chamavam.
Minha parte era Raquel, no passado, agora não mais: Raquel, coisa que nunca foi na vida, e minha, um tempo mais tarde. Ou apenas num tempo passado que me evita exposições ao ridículo. Sei o quanto essas possessões são clichês, modernamente falando, mas eu me arrisco. Talvez só tenha sido minha como foi Raquel, sob minha deturpação das coisas.
Mas na época eu ainda achava minhas deturpações pura criatividade.
Enquanto buscava me empurrar para fora, ela me ensinou a ficar sozinha. Acreditamos juntas que tudo tem um começo palpável e o nosso era a inata necessidade de solidão. Eu conscientemente não acreditava nisso, mas achava que, talvez, possivelmente uma parte de mim, quem sabe, sim. Comprei a solidão, então, e fizemos como que em prateleiras em nossa casa. Solidão essa que ela às vezes chamava solidez, só pra sedimentar o peso essencial da coisa. E também para se mostrar genial.
Talvez o fosse, Raquel.
Eu preferia mesmo chamar a solidão de começo, e só. E depois disso tudo decai, tudo queima. Acreditava sozinha que a expectativa do primeiro era a felicidade e tudo, depois disso, era uma necessidade desumana de voltar àquele instante de deslumbro. Por isso mudar tanto, cruzar tantas esquinas e tantas coleções de passagens covardes. Por essas nenhumas razões colecionadas nas mesmas prateleiras. Mas era um sopro, um respirar de ar limpo e fim.
Depois disso é só nota de rodapé, a agonia da procura. Corremos longe demais no primeiro entusiasmo e não deu tempo de voltar. Ou voltamos e não percebemos, não sei. Só digo que não.
Então, quando ela me provocava com seus sólidos eu a beijava e limpava sua boca dessa acidez toda. Eu sempre buscando sorver um pouco daquela sala, enfrentava a intimidação da coragem que só ela teve, e vasculhava ali. O gosto me doía, mas era macio.
Depois de um tempo, a gente nem sente mais. Depois se goza e se deseja que tudo fosse como antes, sem aquela invasão toda. Quase dá para se desejar ter alguns botões a mais na calça, só para ter o prazer de vê-la abrindo-os um por um, em pura ânsia, infinitos. Mas chega o fim, e é tudo meio sujo mesmo, ainda bem que a gente nem sente mais.
E assim, se desaprende a não ficar sozinho, por fim. É um vício. Acho que é de todo humano: uma vez achado um espaço confortável em nós mesmos se torna impossível sair. Ela me ensinou, certamente, a não tê-la e nem sentir mais - sem querer.
No começo a buscava. Buscava sem saber o porquê da busca, jogando a culpa toda na sala que me exilou. Quando percebi, porém, soube não ser mais o começo e fui embora.
Seu nome era Raquel.
Na verdade, não era. Mas queria que fosse então finjo. Acho que, pela necessidade infantil de sentir mundo, só posso chamar uma pessoa de algo que realmente acredite, e eu tenho certeza de que apenas Raquel poderia carregar tudo aquilo nos pulmões.
Se digo que seu nome era Raquel, é porque é isso que eu sabia, desde antes de me sentar no banco, não me importando com quantos outros de que a chamavam.
Minha parte era Raquel, no passado, agora não mais: Raquel, coisa que nunca foi na vida, e minha, um tempo mais tarde. Ou apenas num tempo passado que me evita exposições ao ridículo. Sei o quanto essas possessões são clichês, modernamente falando, mas eu me arrisco. Talvez só tenha sido minha como foi Raquel, sob minha deturpação das coisas.
Mas na época eu ainda achava minhas deturpações pura criatividade.
Enquanto buscava me empurrar para fora, ela me ensinou a ficar sozinha. Acreditamos juntas que tudo tem um começo palpável e o nosso era a inata necessidade de solidão. Eu conscientemente não acreditava nisso, mas achava que, talvez, possivelmente uma parte de mim, quem sabe, sim. Comprei a solidão, então, e fizemos como que em prateleiras em nossa casa. Solidão essa que ela às vezes chamava solidez, só pra sedimentar o peso essencial da coisa. E também para se mostrar genial.
Talvez o fosse, Raquel.
Eu preferia mesmo chamar a solidão de começo, e só. E depois disso tudo decai, tudo queima. Acreditava sozinha que a expectativa do primeiro era a felicidade e tudo, depois disso, era uma necessidade desumana de voltar àquele instante de deslumbro. Por isso mudar tanto, cruzar tantas esquinas e tantas coleções de passagens covardes. Por essas nenhumas razões colecionadas nas mesmas prateleiras. Mas era um sopro, um respirar de ar limpo e fim.
Depois disso é só nota de rodapé, a agonia da procura. Corremos longe demais no primeiro entusiasmo e não deu tempo de voltar. Ou voltamos e não percebemos, não sei. Só digo que não.
Então, quando ela me provocava com seus sólidos eu a beijava e limpava sua boca dessa acidez toda. Eu sempre buscando sorver um pouco daquela sala, enfrentava a intimidação da coragem que só ela teve, e vasculhava ali. O gosto me doía, mas era macio.
Depois de um tempo, a gente nem sente mais. Depois se goza e se deseja que tudo fosse como antes, sem aquela invasão toda. Quase dá para se desejar ter alguns botões a mais na calça, só para ter o prazer de vê-la abrindo-os um por um, em pura ânsia, infinitos. Mas chega o fim, e é tudo meio sujo mesmo, ainda bem que a gente nem sente mais.
E assim, se desaprende a não ficar sozinho, por fim. É um vício. Acho que é de todo humano: uma vez achado um espaço confortável em nós mesmos se torna impossível sair. Ela me ensinou, certamente, a não tê-la e nem sentir mais - sem querer.
No começo a buscava. Buscava sem saber o porquê da busca, jogando a culpa toda na sala que me exilou. Quando percebi, porém, soube não ser mais o começo e fui embora.

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