Friday, April 13

capítulo 10

Eu tenho quebrado muitos copos.
Andando por um chão viciado de meus passos mancos sempre sinto uma picada na sola do pé, é real e recorrente. Encontro pelo caminho pedacinhos transparentes. Catatônicos pedaços do que quebrei e não tive coragem o suficiente para recolher. Talvez não coragem, apenas uma intenção mais forte, onde nem me arrisco a evocar vontade. Vontade é uma paixão que não existe apenas por cacos de vidro.
Estática, observado o espalhar de vários corpos que fiz escapar de minha mão. Não que seja proposital, mas minha idéia primeira é sempre despedaçar mais e mais. Até que os pedaços se tornem menores e menores e areia. E eu possa, então, destinar-me obsessivamente a recolhê-los todos, grão por grão, doentiamente acomodá-los, como indivíduos pessoais, numa caixa e devolver todos os quais todos juntos, ao exato chão à que pertenceram antes de se espalhar debaixo dos meus pés.
A falha é que nunca me importei com a procedência de meus vidros para ter agora a certeza de que realmente os coloco de volta no lugar certo. O lugar certo é o ponto crucial e talvez isso apenas me trouxesse a vontade. Mas realmente nunca me importei com a procedência de meus vidros.
Continuo como que fascinada na sujeira toda. Não na sensação de que aquela é a única questão a ser resolvida, mas apenas como uma fuga real, assumida. É fraqueza nos últimos, quase me prestando ao ridículo de chorar por uma morte qualquer que talvez eu escreva sobre e passe a chorar por, apenas pela necessidade de enaltecer uma tristeza melancólica sem nome que impregna, sem que morte de qualquer coisa que seja cause. Fuga da cólica da inércia. Sem mais explicações, caso contrário criaria outra fuga qualquer para dores inexistentes.
Um cigarro em meu bolso que me vejo acendendo e dando um longo trago. Ao passo que não sinto nada ardendo garganta abaixo percebo que minhas mãos tremeram o cigarro até que ele quebrasse. Foi embora. Nada concreto uma vez que empacotaram alguns deles todos juntos. Eu tenho algo mais em algum lugar, mas não vou acender agora porque gosto da falta. Fuga número dois.
Acho que tremi até quebrar, e um pedacinho do meu pé sangra. Não me lembro de ter me movido, mas isso é futilidade materialista e eu estava ocupada em não fazer nada quanto a isso. O que quer que seja isso.

1 comment:

Anonymous said...

"A falha é que nunca me importei com a procedência de meus vidros"

com ctz c se preocupa mto mais q eu


te amo
S2

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meio cansada icontinente. self-service de mente. orkut