Tuesday, May 22

um mundo

Existem dias em que acordo com uma necessidade insaciável de não ser. Geralmente são tardes, nas quais eu me levanto e procuro um lugar menos viciado, para que eu possa me largar de novo. São horas essas longas e vazias. Horas. Que, por minha vontade pessoal, deixaram de existir elas, gastas todas no dia anterior, puídas. Horas grisalhas, encardidas, encardidas com mentiras bem maquiadas, esfoladas nos cotovelos. De pura ressaca emocional, desbotada de tanto atrito com lágrimas, resistência necessária a pura sobrevivência basal que construí no dia anterior.
Tem dias que acordo doída de tanto espremer os olhos para não acordar. Neles estocada, calculo, devagar, quantos minutos mereço gastar para fazer um chá. Quem sabe chegue logo, quase despercebida, a hora do jantar. Visto-me. Atravesso meio sem rumo as ruas, apalpo o ombro, a nuca, tira a blusa: estava do avesso.
Nisso uma senhora me olha de atravessado e me lembro que me enfiei tão pra dentro que ninguém me vê. Mas acho que ela viu, então fingi que não. Enquanto ela fazia questão de me olhar eu me engolia mais e mais, em puro simbolismo. Mas minha realidade é míope e eu troquei tudo pelo avesso.
Pode ser uma busca de vida, se deixar. Mas ela vai e volta igual, impaciente, querendo logo outra. Nessa ânsia assim, acordo de sobressalto, mais uma vez no dia, escuto um bom dia rouco de uma vontade de não ser eu, sobrevivendo, mas outro qualquer. E quanto mais qualquer, melhor.
Continuei andando na fobia de quem tem certeza de que vai sumir num dobrar de esquina qualquer. Mas a maioria dos dias acaba antes mesmo de eu encontrar a esquina em que quero me deixar.
Hoje eu acabei. Acordei, hoje, cronologicamente seguindo a aparição de um dia anterior inacabável. Ontem foi uma vida inteira de várias horas. Mas isso acontece quase sempre. Já vivi assim varias vidas, recolhida, num amontoado de espera.
Num dia assim, meio asmático até, decidi roubar uma vida. Acordei especialmente aos poucos, me sentindo indulgente, um pacote bem mal embrulhado no estômago.
Sai correndo pela rua, desacreditando do lado certo das coisas. Com o passar do tempo corria mais devagar. Mas logo parei com isso e me deixei andar. Dissecava a todos na rua e tentava me sentir pode dentro de cada pele, desejei intensamente ser cada pedestre, cada motorista, cada criança arrastada, cada um. Um por um e bem intensamente, pra sentir bastante qualquer coisa fora daqui.
Não era felicidade, não, que quis ser bem mais simples que isso. Buscava apenas absolutos baratos, alguém que pudesse ser concreto o tempo inteiro, livre das minhas diluições aguadas.
Esbarrei em um muro e parei por um instante. Bem pouco para não me arriscar.
Entrei em uma rodoviária e comprei uma passagem para o Próximo Ônibus. De certo teria comprado uma passagem para o Próximo Vôo se estivesse em um aeroporto, com a mesma intensidade com que compraria um bilhete para a Próxima Sessão se estivesse em um cinema. Estava fora de mim, finalmente.

1 comment:

Amanda said...

"andando na fobia?"

auhauha
cavaleira do apocalipse

te amo

My photo
meio cansada icontinente. self-service de mente. orkut