Monday, May 28

cabelos brancos

-ele não faz nada e eu ajudo ele.
ele não faz nada e eu o ajudo todo dia.

Saturday, May 26

cinco mundo

Da última vez que o vi, não o reconheci. Era um dia meio não existido e tentei tomar sua vida. Desisti.

três mundo

A partir daqui, tudo é mais passado ainda, de uma vida que tive logo que largar, uma vez que por ela fui achada.
Seu nome era Raquel.
Na verdade, não era. Mas queria que fosse então finjo. Acho que, pela necessidade infantil de sentir mundo, só posso chamar uma pessoa de algo que realmente acredite, e eu tenho certeza de que apenas Raquel poderia carregar tudo aquilo nos pulmões.
Se digo que seu nome era Raquel, é porque é isso que eu sabia, desde antes de me sentar no banco, não me importando com quantos outros de que a chamavam.
Minha parte era Raquel, no passado, agora não mais: Raquel, coisa que nunca foi na vida, e minha, um tempo mais tarde. Ou apenas num tempo passado que me evita exposições ao ridículo. Sei o quanto essas possessões são clichês, modernamente falando, mas eu me arrisco. Talvez só tenha sido minha como foi Raquel, sob minha deturpação das coisas.
Mas na época eu ainda achava minhas deturpações pura criatividade.
Enquanto buscava me empurrar para fora, ela me ensinou a ficar sozinha. Acreditamos juntas que tudo tem um começo palpável e o nosso era a inata necessidade de solidão. Eu conscientemente não acreditava nisso, mas achava que, talvez, possivelmente uma parte de mim, quem sabe, sim. Comprei a solidão, então, e fizemos como que em prateleiras em nossa casa. Solidão essa que ela às vezes chamava solidez, só pra sedimentar o peso essencial da coisa. E também para se mostrar genial.
Talvez o fosse, Raquel.
Eu preferia mesmo chamar a solidão de começo, e só. E depois disso tudo decai, tudo queima. Acreditava sozinha que a expectativa do primeiro era a felicidade e tudo, depois disso, era uma necessidade desumana de voltar àquele instante de deslumbro. Por isso mudar tanto, cruzar tantas esquinas e tantas coleções de passagens covardes. Por essas nenhumas razões colecionadas nas mesmas prateleiras. Mas era um sopro, um respirar de ar limpo e fim.
Depois disso é só nota de rodapé, a agonia da procura. Corremos longe demais no primeiro entusiasmo e não deu tempo de voltar. Ou voltamos e não percebemos, não sei. Só digo que não.
Então, quando ela me provocava com seus sólidos eu a beijava e limpava sua boca dessa acidez toda. Eu sempre buscando sorver um pouco daquela sala, enfrentava a intimidação da coragem que só ela teve, e vasculhava ali. O gosto me doía, mas era macio.
Depois de um tempo, a gente nem sente mais. Depois se goza e se deseja que tudo fosse como antes, sem aquela invasão toda. Quase dá para se desejar ter alguns botões a mais na calça, só para ter o prazer de vê-la abrindo-os um por um, em pura ânsia, infinitos. Mas chega o fim, e é tudo meio sujo mesmo, ainda bem que a gente nem sente mais.
E assim, se desaprende a não ficar sozinho, por fim. É um vício. Acho que é de todo humano: uma vez achado um espaço confortável em nós mesmos se torna impossível sair. Ela me ensinou, certamente, a não tê-la e nem sentir mais - sem querer.
No começo a buscava. Buscava sem saber o porquê da busca, jogando a culpa toda na sala que me exilou. Quando percebi, porém, soube não ser mais o começo e fui embora.

Wednesday, May 23

dois mundo

Foi então que o vi, pela primeira vez. Olhava para dentro de uma janela, de costas para mim, mas eu não me ofendi, não. Ficou longos segundos intrigado com o interior da sala, vazia. Seus olhos enchiam o ambiente com uma densidade significativa. Brigando com o vidro, penetrando em cada espacinho, sendo atropelado pela janela toda, invisível, que o empurrava para fora.
Vi seu rosto num reflexo rápido e achei tudo mentira, pura petulância, então inventei contornos novos para substituir. Não tive que suportar muito, porém, minha criação. Quando se virou para mim, possivelmente não para me ver, passou tão poucos segundos assim que não foi esforço nenhum sustentar minha imagem na frente da verdadeira.
Logo me desferiu uma cara de desdém e, antes que eu pudesse decidir se era minha imaginação ou força dele mesmo, aquele tédio por mim, se virou novamente para a janela.
Continuou a pressionar aquela coisa toda dele para dentro da sala, alargando cada frestinha aberta, cada espaço desavisado. Por mais alguns segundos, enquanto eu me recuperava do adeus, assistindo minha alma tremular para fora do contorno, ele continuou lá, extremamente de costas, de pé.
Depois virou e se foi.
Tomei o cuidado de esperar que fosse bastante embora, e então me virei para a sala dele. Mirava-a de longe, empoleirada num banco e absorta na imagem nova que figurara. De repente uma superfície gelada encosta em meu nariz e eu vejo o vidro. Orgulhosa, olho para os dois lados num impulso e, quando volto, a porta do outro lado se abre.
Ela entra. Sem medo, leve, como se o ar ali dentro não oferecesse barreira alguma. Respira fundo e traga toda aquela coisa que estava embolada entre o oxigênio, tudo o que ele tinha deixado lá, ela estoca sem se abalar. Abre os olhos e vê minha careta patética espremida no vidro sujo, sorri.
Dei a volta e entrei na sala.

Tuesday, May 22

um mundo

Existem dias em que acordo com uma necessidade insaciável de não ser. Geralmente são tardes, nas quais eu me levanto e procuro um lugar menos viciado, para que eu possa me largar de novo. São horas essas longas e vazias. Horas. Que, por minha vontade pessoal, deixaram de existir elas, gastas todas no dia anterior, puídas. Horas grisalhas, encardidas, encardidas com mentiras bem maquiadas, esfoladas nos cotovelos. De pura ressaca emocional, desbotada de tanto atrito com lágrimas, resistência necessária a pura sobrevivência basal que construí no dia anterior.
Tem dias que acordo doída de tanto espremer os olhos para não acordar. Neles estocada, calculo, devagar, quantos minutos mereço gastar para fazer um chá. Quem sabe chegue logo, quase despercebida, a hora do jantar. Visto-me. Atravesso meio sem rumo as ruas, apalpo o ombro, a nuca, tira a blusa: estava do avesso.
Nisso uma senhora me olha de atravessado e me lembro que me enfiei tão pra dentro que ninguém me vê. Mas acho que ela viu, então fingi que não. Enquanto ela fazia questão de me olhar eu me engolia mais e mais, em puro simbolismo. Mas minha realidade é míope e eu troquei tudo pelo avesso.
Pode ser uma busca de vida, se deixar. Mas ela vai e volta igual, impaciente, querendo logo outra. Nessa ânsia assim, acordo de sobressalto, mais uma vez no dia, escuto um bom dia rouco de uma vontade de não ser eu, sobrevivendo, mas outro qualquer. E quanto mais qualquer, melhor.
Continuei andando na fobia de quem tem certeza de que vai sumir num dobrar de esquina qualquer. Mas a maioria dos dias acaba antes mesmo de eu encontrar a esquina em que quero me deixar.
Hoje eu acabei. Acordei, hoje, cronologicamente seguindo a aparição de um dia anterior inacabável. Ontem foi uma vida inteira de várias horas. Mas isso acontece quase sempre. Já vivi assim varias vidas, recolhida, num amontoado de espera.
Num dia assim, meio asmático até, decidi roubar uma vida. Acordei especialmente aos poucos, me sentindo indulgente, um pacote bem mal embrulhado no estômago.
Sai correndo pela rua, desacreditando do lado certo das coisas. Com o passar do tempo corria mais devagar. Mas logo parei com isso e me deixei andar. Dissecava a todos na rua e tentava me sentir pode dentro de cada pele, desejei intensamente ser cada pedestre, cada motorista, cada criança arrastada, cada um. Um por um e bem intensamente, pra sentir bastante qualquer coisa fora daqui.
Não era felicidade, não, que quis ser bem mais simples que isso. Buscava apenas absolutos baratos, alguém que pudesse ser concreto o tempo inteiro, livre das minhas diluições aguadas.
Esbarrei em um muro e parei por um instante. Bem pouco para não me arriscar.
Entrei em uma rodoviária e comprei uma passagem para o Próximo Ônibus. De certo teria comprado uma passagem para o Próximo Vôo se estivesse em um aeroporto, com a mesma intensidade com que compraria um bilhete para a Próxima Sessão se estivesse em um cinema. Estava fora de mim, finalmente.

Tuesday, May 15

sem mais

não pense nas pessoas mortas. elas estão mortas. diga isso insistentemente até se conformar, morte. não pense em pessoas mortas, caso contrário verá o quanto você mesmo está morto. morta. morte. ser. e mortos não voltam. não pense. sobre a vida.

Saturday, May 12

quem sabe outro dia


já passou, já passou.
mas não foi embora, nada.
que pena que eu queria tanto
embora, não tenha tentado.
tá passando, tá passando...

Thursday, May 10

continua

não falo. não fala.
pra quem por quem a quem, onde vai
me encobre esconde remonte dispersa
me cura retruca cutuca, aqui vai
incrimine reprime insiste, repete
ilude.

Wednesday, May 9

não se esqueça do sorriso na cara

Escrevo. Escrevo. Escrevo. Quando vou ver, abafo. Eu leio, mas não leio de verdade, que as palavras lá estavam antes... e agora continuam a não estar. Verdades.
É um porque que me foi embora. Um porque tinha a mim. E eu tinha como ao porque dizer. De dito ao dito muitas vezes, não tenho mais.
Peso em gritar. Só, nisso. Mas quando vou ver, abafo. É um grito transparente sussurrado, meio manco: mas com pressa. É bem feito de ver.
Oscilando. Se derruba eu subo. Invento qualquer coisa e, mesmo que seja a vida, eu assumo. Todos os pronomes e artigos indefinidos que preenchem as lacunas, eu oculto. Deixa como que meio a meio pra lá. Me cubro e durmo. Cubro-me, digo.
Não ao ter coisas. Tenho o passado que me foi imposto pelo ir, mesmo dizendo não ao ir das coisas.
Retratos de passado, então, que não pude deixar:
Muita, muita coisa especificamente não lida.
Ela estava deixando o cabelo crescer e tinha um amor para a vida inteira, por assim dizer. Então discou muitos números e quando parecia absorvida na questão do porque da ação de apertar botões no teclado do celular, quadrado, é chamada discar, ele atendeu. A voz chega mal-feita, distante. É que alguém que se ama para a vida inteira mora longe. Por situações como essa ele quer viajar muito, muito, quando tiver dinheiro, para vê-la vestida nos cabelos longos.
Pouca, desisto.
Ou quando se está tão assim que tudo é sadicamente pesado, uma porta estúpida de vidro, longa, longa, te espera e supera a qualquer momento humano. Um sorriso remove a hipocrisia da proteção, e tudo volta. Em forma de ânsia. Já se sentiu tão triste a ponto de sentir falta do desespero quando de súbito o tédio te espanta? É só, pura tristeza.
Oscilando, verdade.
Tinha um caderninho preto que me foi roubado. Às vezes me faz uma falta... E eu sinto uma saudade doente dele todo, e de onde ele vivia.
Por isso esqueço um pedaço dos retratos.

Friday, May 4

sem abril

saudade não tem nada a ver com tempo. se não dá na hora, assim, depois nem vem mais.
só chega se os outros forem embora.
mas todos que tenho aqui
engasgam.;
então não faz diferença.

retiro

-cadê seu celular? Carrega aqui, oh:
-não trouxe.
Sorriu.
A gente sempre vai tirando a roupa ao chegar nos quartos, juntas. Ela primeiro, odeia ficar de roupas em quartos com espelhos. Ou é só comigo.
Tira a blusa. Ela tá feliz hoje. Só feliz. Eu só assisto. Tento não me preocupar com a impossibilidade de assistir assim, pra sempre, mas ando desenvolvendo minha habilidade de abstrair de mim. Eu quase nem existo por muitos segundos, as vezes.
Ela tira a blusa e se olha no espelho, na maior petulância. Ta querendo se ver, mesmo, só ela. Tem gente que alega procurar incoerências no corpo, isso e aquilo, ela não. Só se admira e se desafia, olhando de cima a baixo. Estava bem. Agora não mais. Sim, achava novamente, e se posava toda no tal espelho.
Eu fingia que lia. Num impulso, apoiei o livro na cama e arranquei a blusa. Arranquei mesmo, porque ela enroscou no meu brinco e eu não parei, foi tudo. Joguei fora e fingi que não. Peguei meu livro de volta, deitada.
Perguntava-me amenidades e eu fazia que não tava nem aí. Mas quem não estava era ela. Nunca estava, nunca esteve. Tirou a saia e não consegui recuperar nenhuma imagem que me lembrasse de como era ela vestida. Provavelmente era apenas ela, nem aí pra nada, as vezes nem aqui.
Eu, sozinha. A final, tirei a saia também. Não, eu tava de calça. Então tirei a calça.
Mas levantei.
Ela continuava a se espelhar pelo quarto, e a falar. Fala e quase demais e sempre e muito alto. Esporadicamente mandava-a calar a boca, com um sorriso na boca. Sempre nada acontecia.
Toda aquela força me oprimia. Meu calar queria feri-la, diminuí-la e alguma forma. E eu só fazia calar. Quanta força, caralho.
Caralho pode? Ela não gosta de caralho. Calou-me.
Cansei. Postei-me no espelho, atrás dela. Nem se moveu. Desumana. Não, sobre-humana. Ou deixa pra lá, que ela tirou o sutiã.
Não vou, não. Eu odeio ficar pelada. Ela sabe. A gente sempre tira a roupa nos tais quartos com espelhos. Ou talvez seja conosco.
Só pra ver melhor. Ver o que as pessoas todas, quase todas, não vêem. A gente fala e desveste.E tento ver. Eu ponho os óculos, se quiser... Não, ta, eu tiro. Não encosta. Estou te vendo toda, mesmo assim, tira a mão da frente do peito agora.
Ela se tirou toda da frente do maldito espelho. Caralho, ela era grande. Desculpa, sem caralho. Somos só eu e você, ta vendo?
Viu, viu mesmo. Você ta menor que da ultima vez, disse. Perna menor, barriga menor. Está mais magra? Cabelo menor, olhos, seu olho está pequeno, se escondendo pra dentro.
É a alma, foi a alma que encolheu.
Nem me ouviu. Ela não liga para meus disparates... ou vai ver minha voz também encolhera. Cordas vocais apequenadas, e ela nem me ouviu.
É, já tinha dito isso, mas nem me ouvi.
Se pôs na frente do espelho outra vez e me humilhou. Era grande, de verdade. Colorida. Nunca vou parar de me impressionar com o quanto algumas pessoas conseguem carregar as cores. Elas simplesmente estão ali: na pele nos olhos na boca. Engraçado, são as mesmas que as minhas, só que as minhas não estão aqui. Engraçado isso.
Tentei de novo, com calma. Posei pro espelho. Atrás dela, lógico. Espelho ela eu. Meio vestida, ainda. Mas ela me cobria mais, me escondia.
Não segurança. Estendi o braço o máximo que pude e ela não saiu do lugar, e não alcancei nada. Ela estava longe e eu não sentia nada, só o medo. Esse medo eu conheço, mas ainda me dá e me leva.
Tentou me encostar, por fim. Eu pulei. Sai daqui, acaba com isso que você é tanto que não cabe em mim e me arranca o ar e eu viro criança e tanto de pequena e pequena que choro e sumo. Choro feito criança e sumo. Escrevo feito criança e sumo.
-que bom que você veio - eu tentando buscar um fim, pra poder parar.
-que bom que a gente veio – me disse. Só disse, não respondeu, disse.
Sorri. Melancólica. Não, irônica. Mas esse ela não viu, que já estava debaixo do chuveiro.
Só você veio, meu amor.

Thursday, May 3

minha criança com raiva

Por quantos internos deixamos de passar pela falta de liberdade. Conto choros pelo vazio nomeados de opressão e, na ânsia e alívio, nos arremessamos em insanidades que enchem de incapacidades nosso estômago.
Atrevimentos que exilamos do conseguir por faltar espaço. Falta nada, sobra. Sobra um monte de coisa que a gente não usa por medo do tamanho que nasce. Tamanho nasce e ninguém guarda, mais.
Vai e fala que prende. Prende onde. Inventa encurralos e sem saídas só pra poder chegar mais cedo em casa e esfolar o travesseiro, mais um pouco.
É que não pode, não. Se vive pra sempre, reprime. Se não vive, vive assim mesmo.

Wednesday, May 2

crônicas

Vai embora
porque
eu quero
me fala
vai. De frente
por que
não
te quero

mais
mas
Joga no meu colo. Eu seguro, já falei, seguro tudo. Me seguro, aqui, sentadinha, enquanto você vai embora. Pode ser de costas, já tantas vezes se jogou no meu colo, mas eu não. Nunca te dei as costas, nunca baixei a cabeça, nunca te dei a nuca.
Porque?
Eu tropeço.
Mentira
tá, pra não te perder
vista
é minha.
Adiós. de Marques anunciado.

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meio cansada icontinente. self-service de mente. orkut