-cadê seu celular? Carrega aqui, oh:
-não trouxe.
Sorriu.
A gente sempre vai tirando a roupa ao chegar nos quartos, juntas. Ela primeiro, odeia ficar de roupas em quartos com espelhos. Ou é só comigo.
Tira a blusa. Ela tá feliz hoje. Só feliz. Eu só assisto. Tento não me preocupar com a impossibilidade de assistir assim, pra sempre, mas ando desenvolvendo minha habilidade de abstrair de mim. Eu quase nem existo por muitos segundos, as vezes.
Ela tira a blusa e se olha no espelho, na maior petulância. Ta querendo se ver, mesmo, só ela. Tem gente que alega procurar incoerências no corpo, isso e aquilo, ela não. Só se admira e se desafia, olhando de cima a baixo. Estava bem. Agora não mais. Sim, achava novamente, e se posava toda no tal espelho.
Eu fingia que lia. Num impulso, apoiei o livro na cama e arranquei a blusa. Arranquei mesmo, porque ela enroscou no meu brinco e eu não parei, foi tudo. Joguei fora e fingi que não. Peguei meu livro de volta, deitada.
Perguntava-me amenidades e eu fazia que não tava nem aí. Mas quem não estava era ela. Nunca estava, nunca esteve. Tirou a saia e não consegui recuperar nenhuma imagem que me lembrasse de como era ela vestida. Provavelmente era apenas ela, nem aí pra nada, as vezes nem aqui.
Eu, sozinha. A final, tirei a saia também. Não, eu tava de calça. Então tirei a calça.
Mas levantei.
Ela continuava a se espelhar pelo quarto, e a falar. Fala e quase demais e sempre e muito alto. Esporadicamente mandava-a calar a boca, com um sorriso na boca. Sempre nada acontecia.
Toda aquela força me oprimia. Meu calar queria feri-la, diminuí-la e alguma forma. E eu só fazia calar. Quanta força, caralho.
Caralho pode? Ela não gosta de caralho. Calou-me.
Cansei. Postei-me no espelho, atrás dela. Nem se moveu. Desumana. Não, sobre-humana. Ou deixa pra lá, que ela tirou o sutiã.
Não vou, não. Eu odeio ficar pelada. Ela sabe. A gente sempre tira a roupa nos tais quartos com espelhos. Ou talvez seja conosco.
Só pra ver melhor. Ver o que as pessoas todas, quase todas, não vêem. A gente fala e desveste.E tento ver. Eu ponho os óculos, se quiser... Não, ta, eu tiro. Não encosta. Estou te vendo toda, mesmo assim, tira a mão da frente do peito agora.
Ela se tirou toda da frente do maldito espelho. Caralho, ela era grande. Desculpa, sem caralho. Somos só eu e você, ta vendo?
Viu, viu mesmo. Você ta menor que da ultima vez, disse. Perna menor, barriga menor. Está mais magra? Cabelo menor, olhos, seu olho está pequeno, se escondendo pra dentro.
É a alma, foi a alma que encolheu.
Nem me ouviu. Ela não liga para meus disparates... ou vai ver minha voz também encolhera. Cordas vocais apequenadas, e ela nem me ouviu.
É, já tinha dito isso, mas nem me ouvi.
Se pôs na frente do espelho outra vez e me humilhou. Era grande, de verdade. Colorida. Nunca vou parar de me impressionar com o quanto algumas pessoas conseguem carregar as cores. Elas simplesmente estão ali: na pele nos olhos na boca. Engraçado, são as mesmas que as minhas, só que as minhas não estão aqui. Engraçado isso.
Tentei de novo, com calma. Posei pro espelho. Atrás dela, lógico. Espelho ela eu. Meio vestida, ainda. Mas ela me cobria mais, me escondia.
Não segurança. Estendi o braço o máximo que pude e ela não saiu do lugar, e não alcancei nada. Ela estava longe e eu não sentia nada, só o medo. Esse medo eu conheço, mas ainda me dá e me leva.
Tentou me encostar, por fim. Eu pulei. Sai daqui, acaba com isso que você é tanto que não cabe em mim e me arranca o ar e eu viro criança e tanto de pequena e pequena que choro e sumo. Choro feito criança e sumo. Escrevo feito criança e sumo.
-que bom que você veio - eu tentando buscar um fim, pra poder parar.
-que bom que a gente veio – me disse. Só disse, não respondeu, disse.
Sorri. Melancólica. Não, irônica. Mas esse ela não viu, que já estava debaixo do chuveiro.
Só você veio, meu amor.