Saturday, March 31

curta-metragem

Se chorei, foi porque tomei consciência de mim como a assassina que sou.
Vê você que é também, se reconhecendo em minhas palavras.
Pretendo andar reto e esmago formigas que ignoro, no chão. Pretendo andar reto e esmago sentimentos que ignoram minha negativa. É morte de seres vivos em busca de vida própria. Orgasmo gelado, afogado nos soluços de vergonha enrolados no lençol. Sufoco.

Mas quebra. Tudo uma questão de tempo.
Ela quebra... pedaço
pedacinho
granulado
poeirinha...

e de agora para um depois que pretendo prolongar, me permito esconder o torto debaixo do meu pé.

descalço...

Thursday, March 29

prefácio abortado

Não é uma escolha, é só minha ocasião. Situada que estou assim, não tenho abstino, metas. São escritos de inutilidade que simplesmente não cabiam mais em mim e eu despejei. São mentiras.
São mentiras. Umas que eu tenho vivido, tinha vivido. Algumas outras que outros me fizeram viver. Coisas que eu vi passando e não tive tempo de empacotar. Inverdades mal diferidas, outras agora vômitos. Traguei algumas das linhas e elas se estocaram no meu pulmão. Inventei algumas das páginas basicamente porque não pude evitar.
Agora sinto uma necessidade violenta de me desculpar. Mas eu não vou, preciso do meu orgulho para os pragmatismos da única pontuação que sei usar.
Só o que faço é assumir minha incapacidade de não ser.

Tuesday, March 27

sem motivo

Depois de tanto, a gente passa a se mascarar mesmo nu.
Foi que vi nessa angústia um manifesto loucamente humano.
Segui mãos descolando fiozinho do gel e mão agarrando pernas e mãos e mãos e...
Mãos esquecidas no colo, num certo então.
Nem acreditei no sorriso doce. Daquele que expulsa o sarcasmo por se lembrar de que é solidão, mesmo, o que se tempo pra mostrar.
Foi que vi essa manifestação numa angústia humanamente minha.
Nessas mãos vi minhas mãos suadas amassando meus quilômetros de cabelo, que cortei. Cortei tudo pra fora pra me livrar das lágrimas.
Aquelas que me ultrajaram. Rolaram cachos adentro e umedeceram tudo. Amoleceu os abstratos todos feito papelão, até despedaçar. Molharam tudo, fios, olhos, mãos...
As duas mãos, acho que minhas, esquecidas no colo.

Na descrença da possibilidade do choro, tempos depois; na ironia de um lugar que me lembrava tantas coisas que nunca se deram ao trabalho de acontecer ali: uma lágrima coagulada no canto do olho. Seca. Travando os movimentos da visão, me vidrando num ponto redemoinho de mim mesma.
Ainda bem o sorriso desidratado solo, doce.
Um pouco mais de invasão de mim e eu roubava sua lágrima inexistente e fazia rolar pelo meu colo nu abaixo.

Saturday, March 24

lista

gosto de mim mesma sentada no degrau do jardim
fumando meu cigarro e vestindo minha gola alta.

gosto de alguns homens
um número um pouco menor de mulheres
gosto muito, de uma delas
amei duas, talvez
amei um homem.
gosto de um isqueiro, que eu perdi
de um livro que emprestei para um dos homens acima
verdade que perdi ambos.
gosto de grafite, que é fácil ter sempre
por mais que eu perca, sempre acho.
gosto de manhã de segundas feiras
gosto muito de todos os segundos dessas manhas antes que eu me lembre
que é uma manhã de segunda feira
gosto de água sem gelo
de óculos de sol de lente suja
pra não ver nada.
gosto da minha miopia

só não gosto de mim mesma quando misturada a tudo isso.
Humanamente falando, principalmente.

Tuesday, March 20

tentativa de texto menos não-jornalístico

Para minhas doenças hipocondríacas, tratamentos esquizóides.
Agulhinhas finas que desafiam meu pânico. A verdade é que me sinto ridícula demais para reclamar da dorzinha infantil das picadas. Nada me tira da cabeça que parte do tratamento é sempre reduzir o paciente à consciência de quão patético pode ser seu drama pessoal. Mas eu nunca disse que não era patética, também.
O que eu sinto não é exatamente explicável. Um exaurir de forças que me faz querer coisas absurdas como chegar ao médico e esperar, sinceramente, que ele me cure sem que eu fale muito. Chego a ser ridícula o suficiente para me irritar com a incapacidade do médio de entender meu silêncio. Eu nunca, nunca afirmei não ser patética.
Mais uma chance para me explicar. Enquanto algumas pessoas insistem em dizer que estou muito, muito pálida e que deveria comer um bife para normalizar meu metabolismo pseudo-vegan amarelento, eu sinto minha alma cair fora. Não tenho certeza de que acredito numa alma, mas uma faceta bem transparente de mim se senta ao meu lado e cruza os braços. E meu corpo fica inerte tentando se movimentar.
As coisas ficam em câmera lenta, eu me confundo com as coisas que toco que não sei dizer exatamente onde acabam meus dedos e onde começa o travesseiro que eu agarrei. Eu tenho mania de agarrar travesseiros quando algo me assusta. Por falta do travesseiro eu agarro minha bolsa na rua, o que aparenta ser muito menos infantil, mas não menos lunático. Mas durante meus pequenos ataques de drama pessoal, nem a bolsa se sente.
Talvez fosse uma experiência de contato com o mundo exterior, mas eu me sinto presa demais em mim, tanto ao ponto de sentir ecoar as vozes de pessoas estranhas que falam ao meu redor. Quem são elas todas, afinal?
Melhor. Porque tantas?
Alguém sempre esfrega as mãos nas minhas costas. Eu tento me concentrar nessa mão com toda a minha força, como se uma âncora para a realidade. Mas eu tenho outro espasmo de distorção de mundo e... esqueço da mão.
Às vezes é uma mão pequena de unhas curtinhas e digitais delicadas. Outras uma mão grande e pesada e quente. Mas no fim eu nunca sei diferenciar que parte minha está sendo tocada, ou onde começa meu corpo e termina o gancho de realidade. Mesmo porque meu corpo está do meu lado, de braços cruzados. Sou eu, translucidamente. E eu apenas fico. Desesperadamente apenas fico. Fora. Olhando-me com um olhar pacifico e irônico. Eu peguei nojo desse meu próprio olhar que fico distribuindo mundo abaixo.
É que depois de tanta força para parar a insanidade que eu não comecei, a força foi embora também. Aceito. Até eu quis ir embora de mim. Quem sabe essa descrição ajude minha necessidade de calar. Vou colocar num site de busca, talvez. Vou fazer um pequeno folder e sair distribuindo pelos consultórios da cidade. Eventualmente até para um amigo ou dois, quem sabe mais algumas mãos tentem me trazer a realidade. Ou quem sabe alguém simplesmente concorde: garota, você é patética.


ps: diminuir a manchete.

Sunday, March 18

meu pânico

a pequena, a feia, a esquizofrênica, a amável, a louca, a fria, a despótica, a tentativa

é o ego se debatendo nas paredes da sala escura
descascando a tinta.
não quer abrir a porta, não
é só barulho mesmo.
é morte pequena, pura desidratação.
é birra.

não é?

treme
todo dia morremos um pouquinho
mas sempre sobra.

Saturday, March 17

m anda

me deixa,
que eu te seqüestro.
sem seu consenso, sem sua ordem final, sem roupa, que seja, sem querer
que eu meio que quero
te ouvir gritar
um choro de frio, de ódio de mim
pudor arrancado
a malha fina
arrancar tudo pra fora que eu quero de ter envolta em sentimento cor de pele
é novidade
ao meu tédio
saber que sente
minha pele em volta pelas voltas assim, correndo só para sair de mim
que foi a melhor coisa
você
que já aconteceu
aqui.

e agora eu quero tudo isso, pra fora
envolta.


me deixa
que eu te sequestro
pro meu mundo
e a gente some.

Wednesday, March 14

soluço

não vai, não fica
e afinal, nem fiz nada
é amor a coisa nenhuma
daquele de querer beijar deus
na boca de uma mulher da rua.

Monday, March 12

poema vazio

não que eu esteja perdida
nem que essa seja uma condição de mim
que não, me lembro que assim não
por eu, sendo eu mesma
procurar em vãos espaços
buracos e vãos
não...
não que eu procure, mas nem que me perca

é que é tudo igual

o que acontece é que estou sempre no mesmo lugar
tudo é sempre o lugar onde eu estou
e de uma certa forma
nem importa muito para onde eu vá

eu sempre sinto igual
e ele não se comove

nem importa muito, não que seja perdida
não me falta nada... nada.

é só tristeza.
não vês? quão triste estou
é uma ausência
inercia
não vês?

é só tristeza...

Thursday, March 8

qual o problema

Eu tenho livros de não me lembro de ter comprado, livros que li pela metade, um filme enfiado no dvd goela abaixo. dvd que assisto todas as noites, e não acaba. De uns tempos pra cá ando tendo medo de gastar meus minutos de filme restantes. Ligo a tv e tento dormir no frio da tela congelada, ou passo pelo medo de gastar alguns segundos de movimentos. economizando pra não ter que encarar o fim. te economizando pra não encontrar o teu fim. Que o fim sempre tem gosto amargo. Gosto de filtro de coisa que eu não sei o que é.
tentando chegar livre ao fim, mas não vai dar. Tentando chegar de ideias ao fim, mas elas se misturam e eu já nem sei mais por onde estou andando.

é tudo uma mistura de sempre a mesma coisa

estou correndo agora.

Tuesday, March 6

capital letter

nesse meu bloqueio mental instigado pelo meu vício nicotina e cafeína gelada, eu encontro movimentos que me delatam. avesso minha bolsa procurando me livrar do tabaco espalhado, marco páginas do meu livro com um isqueiro. hidratada pelo império coca-cola.

marlboro light, coca light. e Christopher Hitchens:

"Imagine um Estado de Beatitude, Felicidade e Harmonia Perpétuas, e Você Terá Criado uma Versão do Tédio, da Inconsequência e da Previsibilidade."

Monday, March 5

fantasmas

Comprou uma cartola e uma bengala. Só de sacanagem mesmo, queria fazer uma graça. A vida andava meio séria ultimamente e a ideia de estagnação manchava de aflição um momento de paz.
Era uma cartola arredondada, sabe-se longe o nome daquilo. Deixou a classificação futilmente morrer na cabeça e se postou perante ao espelho.
Achou uma camisa. Era larga, mas confortável. Tirou o sutiã e se enfiou naturalmente dentro do linho, sem esconder suas marcas.
Tentou uma gravata, mas não sabia dar o nó direito e se sentiu meio ridícula com aquela bolota no colo.
De repente, um cansaço. Soltou a pose. Tirou o chapéu e a camisa e a calça e tudo. Jogou-os todos numa pilha coroada pela bengala e fez de si mesma uma outra pilha. Espremidinha na cama. Se dobrava inteira, sempre tomando o cuidado de observar o Tédio.
Sentado em meu sofá, um homem. De chapéu, bengala e cara, paralisados. É um tédio fantasmagórico. Muito, muito sólido.
Uma figura figurante.

Mas eu, não. Eu só assistia da porta, e não me prestei a nada.

Sunday, March 4

embrulho

enjôo.

me perdoa, mas eu não posso parar de lembrar

Saturday, March 3

pedaço de uma coisa maior

mas me desestruturou. minha boca pede gosto... meu estômago se fecha. é um desacordo total e eu discordo plenamente também.

Thursday, March 1

querido diário

Eu só sei olhar. só consigo escrever sobre o que se sente da história e sobre o que vejo dela. Não sei criar momentos a organizar a idéia em uma cena simbólica.
É como se só dominasse uma parte do processo. Passo por parte dele de forma relativamente simples, mas não volto. Formo cenas piegas e me irrito.
Me irrito. As sensações pequenas dominam minhas reações de mundo. Passo a não ser capaz de responder ao que me perguntam, uma vez que mal ouvi... Estava ocupada no nervoso da falta de eloquência.
Sei só olhar mesmo. O que eu gosto de fazer é assistir aos outros, sem ter que me mover. Assistir, espectar. E posso escrever sobre isso. Ou sobre o que provoca numa eu, parada. Mas não posso descrever. Fica bobo. Não encontro diálogos menos piegas. É quase como se achasse cafona viver...

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meio cansada icontinente. self-service de mente. orkut