Para minhas doenças hipocondríacas, tratamentos esquizóides.
Agulhinhas finas que desafiam meu pânico. A verdade é que me sinto ridícula demais para reclamar da dorzinha infantil das picadas. Nada me tira da cabeça que parte do tratamento é sempre reduzir o paciente à consciência de quão patético pode ser seu drama pessoal. Mas eu nunca disse que não era patética, também.
O que eu sinto não é exatamente explicável. Um exaurir de forças que me faz querer coisas absurdas como chegar ao médico e esperar, sinceramente, que ele me cure sem que eu fale muito. Chego a ser ridícula o suficiente para me irritar com a incapacidade do médio de entender meu silêncio. Eu nunca, nunca afirmei não ser patética.
Mais uma chance para me explicar. Enquanto algumas pessoas insistem em dizer que estou muito, muito pálida e que deveria comer um bife para normalizar meu metabolismo pseudo-vegan amarelento, eu sinto minha alma cair fora. Não tenho certeza de que acredito numa alma, mas uma faceta bem transparente de mim se senta ao meu lado e cruza os braços. E meu corpo fica inerte tentando se movimentar.
As coisas ficam em câmera lenta, eu me confundo com as coisas que toco que não sei dizer exatamente onde acabam meus dedos e onde começa o travesseiro que eu agarrei. Eu tenho mania de agarrar travesseiros quando algo me assusta. Por falta do travesseiro eu agarro minha bolsa na rua, o que aparenta ser muito menos infantil, mas não menos lunático. Mas durante meus pequenos ataques de drama pessoal, nem a bolsa se sente.
Talvez fosse uma experiência de contato com o mundo exterior, mas eu me sinto presa demais em mim, tanto ao ponto de sentir ecoar as vozes de pessoas estranhas que falam ao meu redor. Quem são elas todas, afinal?
Melhor. Porque tantas?
Alguém sempre esfrega as mãos nas minhas costas. Eu tento me concentrar nessa mão com toda a minha força, como se uma âncora para a realidade. Mas eu tenho outro espasmo de distorção de mundo e... esqueço da mão.
Às vezes é uma mão pequena de unhas curtinhas e digitais delicadas. Outras uma mão grande e pesada e quente. Mas no fim eu nunca sei diferenciar que parte minha está sendo tocada, ou onde começa meu corpo e termina o gancho de realidade. Mesmo porque meu corpo está do meu lado, de braços cruzados. Sou eu, translucidamente. E eu apenas fico. Desesperadamente apenas fico. Fora. Olhando-me com um olhar pacifico e irônico. Eu peguei nojo desse meu próprio olhar que fico distribuindo mundo abaixo.
É que depois de tanta força para parar a insanidade que eu não comecei, a força foi embora também. Aceito. Até eu quis ir embora de mim. Quem sabe essa descrição ajude minha necessidade de calar. Vou colocar num site de busca, talvez. Vou fazer um pequeno folder e sair distribuindo pelos consultórios da cidade. Eventualmente até para um amigo ou dois, quem sabe mais algumas mãos tentem me trazer a realidade. Ou quem sabe alguém simplesmente concorde: garota, você é patética.
ps: diminuir a manchete.